Ciclo de crédito americano: o que o futuro nos aguarda?

Ciclo de crédito americano: o que o futuro nos aguarda?

A economia americana já está há oito anos na fase de expansão de seu ciclo de crédito, que tende a durar de oito a dez anos, segundo afirma o gestor de hedge fund Ray Dalio. O ciclo de crédito acompanha a expansão e a contração do acesso ao crédito ao longo do tempo. Ele influencia o ciclo econômico como um todo: variações no acesso ao crédito afetam as habilidades dos agentes de financiar atividades de consumo e investimento.

Na fase de expansão, a injeção monetária na economia acarreta num aumento da oferta monetária por bens e serviços, estimulando a atividade econômica e o emprego. O fortalecimento econômico induz a um crescimento da confiança e, consequentemente de empréstimos bancários. A alavancagem cresce à medida que maiores taxas de crescimento induzem em mais endividamento das empresas. Os preços dos ativos – imóveis, ações, títulos – são positivamente pressionados pelo aumento da demanda daqueles agentes alavancados. Essa inflação no preço dos ativos pode desenvolver uma bolha de preços especulativa insustentável.

Desde a crise financeira global em 2007-08, políticas de Quantitative Easing foram implementadas nos Estados Unidos, Reino Unido e países da Zona do Euro. O Quantitative Easing é uma politica monetária onde um banco central cria quantidades significantes de dinheiro novo (geralmente eletronicamente) a fim de comprar títulos de dívida pública ou outros ativos financeiros para a estimular a atividade econômica, ou seja, aumentar os gastos do setor privado e levar a inflação a sua meta. Em conjunto com a compra de ativos, as autoridades monetárias destes países vêm buscando manter as taxas de juros em níveis próximos a zero.

Essa consequente injeção monetária na economia têm uma variedade de efeitos potenciais. Diretamente, a venda de ativos financeiros pode resultar num aumento das reservas bancárias. Com isso, os bancos comerciais disponibilizam de mais fundos para aumentar o crédito na economia. Este aumento do crédito e financiamento encoraja um aumento do consumo e do investimento.

Indiretamente, a compra dos ativos tende a aumentar seus preços e assim reduzir suas rentabilidades. Menores rentabilidades e juros reduzem o custo de capital para o financiamento de empresas e famílias. Isso, por sua vez, pode acarretar num aumento do consumo e do investimento. Alia-se a isso um aumento da riqueza proporcionado pelo aumento nos preços dos ativos que também incentiva um aumento do consume por bens e serviços.

Quando um banco necessita de liquidez, entrega ao banco central um ativo teoricamente livre de risco, que geralmente são títulos da dívida pública, e que funcionará como colateral. O Quantitative Easing consiste somente em ampliar o leque de ativos que podem ser entregues em troca de liquidez. Neste momento, embora o balanço do banco central sofra uma expansão, não há uma implicação de que os agregados monetários tenham se expandido também. Este incremento de liquidez será convertida em oferta de moeda apenas se aumentar a demanda por depósitos.

O Banco central aumenta a base monetária disponibilizando liquidez a médio prazo, mas a moeda só é efetivamente criada e chega à economia real quando os bancos cedem crédito, depositando esse dinheiro numa conta e assim expandindo a M2.

Como a ilustração 1 abaixo demonstra, só quando toda (ou uma parte substancial) da liquidez for efetivamente canalizada para a economia é que a oferta de massa monetária inflacionária (M2) expande, podendo aí gerar-se inflação.

Ilustração 1 – Quantitative Easing na Zona do Euro

No últimos anos, o  dinheiro não tem chegado integralmente à economia, fruto da consolidação das instituições financeiras. Os estímulos que tinham como objetivo final impulsionar o consumo e os investimentos resultaram no início de um novo processo de valorização dos ativos financeiros, que atingem níveis superiors ao de antes da crise de 2008 e podem indicar o começo de novas distorções. Neste ano, os níveis de empréstimos bancários e o índice S&P 500 atingiram recordes históricos. O gráfico 1 mostra a grande correlação do índice de ações americanas com o nível de empréstimos bancários americanos. As áreas em cinza representam os períodos de recessão americana.

Gráfico 1 – Empréstimos bancários mensais vs. S&P 500 mensal

A Economista e Professora da Universida de Harvard, Carmen M. Reinhart, autora do best seller “Desta vez é diferente: oito séculos de delírios financeiros”, elaborou um roteiro para o desenrolar das crises financeiras. Antes dos colapsos, os indicadores quantitativos antecedentes apontados pelo estudo são: (i) grandes fluxos de entrada de capital, (ii) forte alta nos preços dos ativos (sobretudo ações), (iii) altas pronunciadas nos preços de imóveis, (iv) trajetória de crescimento em forma de “V” invertido, (v) alta significativa no endividamento.

Além desses fatores quantificáveis, existem outros que são elencados como “amplificadores” da crise. Quais sejam: (i) políticas macroeconômicas procíclicas, (ii) dívidas ocultas (com garantias implícitas), (iii) moeda supervalorizada, (iv) regulação pobre, (v) supervisão ainda pior, (vi) fraudes e (vii) agências de classificação de risco “míopes”. Esses elementos são chamados de amplificadores, pois aumentam o período e a magnitude tanto das expansões quanto das recessões.

No momento, a atenção, novamente, está voltada para os EUA e para os riscos da política monetária expansionista até então estar gerando um processo de alto endividamento e bolhas nos preços de ativos. Após a crise do subprime e o fim da fase de retração do último ciclo de crédito em 2009, a taxa de juros administrada pelo Banco Central dos EUA (FED) permaneceu de dezembro de 2008 até novembro de 2015 no intervalo entre 0% e 0,25% ao ano. Nesse período, também foram empregadas medidas não convencionais de expansão monetária e o balanço do FED passou de US$894 bilhões para US$ 4,49 trilhões, entre o final de 2008 e o início de 2016.

Hoje, o mercado de trabalho americano está perto do pleno emprego com a taxa de desemprego em 4,7% e o produto cresce numa faixa de 2-3% ao ano. Desde novembro de 2011, início da segunda rodada de quantitative easing, o índice S&P 500 acumulou alta de 64,2% , enquanto os lucros antes dos impostos das empresas privadas cresceram apenas 1,2% em termos nominais. No mercado corporativo, a disponibilidade de recursos financeiros a baixo custo e a facilidade de se levantar recursos levaram a dívida do setor não financeiro a atingir 45% do PIB, valor  semelhante ao pré – crise.

Desde 2010, o setor corporativo americano obteve mais USD 7,8 trilhões em dívidas e outros passivos. O agravamento do endividamento das empresas pode ser evidenciado pela queda substancial no rácio de cobertura de serviços da dívida médio nos dois últimos anos, com lucros que não chegam a seis vezes o pagamento de juros. O rácio de cobertura é o número de vezes que o resultado operacional cobre os juros financeiros mais amortizações de capital a que a empresa está sujeita.

Gráfico 2 – Rácio de Cobertura Médio

(EBIT sobre pagamento de Juros)

Em 19 de abril deste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou seu bianual Global Financial Stability Report no qual afirma: “Os fundamentos do crédito corporativo começaram a enfraquecer, criando condições que historicamente precederam retrações do ciclo de crédito.” O relatório também advertiu que a redução de impostos e a implementação de políticas de desregulamentação propostas pelo governo Trump podem acabar exacerbando fragilidades das empresas americanas. Um rápido aumento nos custos de empréstimos poderia ser uma das implicações da política fiscal expansionista de Donald Trump. Este cenário é perigoso quando têm-se um setor corporativo altamente endividado e muito vulnerável a aumentos das taxas de juros.

Na fase de expansão do ciclo de crédito, os gastos na economia crescem mais do que a produção de bens e serviços. Essa tendência acarreta numa pressão inflacionária, que é respondida pelas autoridades monetárias com uma política monetária contracionista. Uma redução na liquidez monetária e um encarecimento do crédito desaceleram a atividade econômica. A fase de retração então sucede a fase de expansão do ciclo de crédito. Quando o capital disponível dos agentes é reduzido, um declínio no preço dos ativos pode ocorrer nos mercados que haviam se beneficiado da expansão de crédito pela queda da demanda. Isto tende a causar insolvência e falência aos agentes recém chegados ao mercado. Em seguida, a solvência e lucratividade do sistema bancário é afetada, resultando numa contração generalizada do crédito. Assim, uma recessão ocorre em decorrência da contração da dívida do setor privado.

Hoje a inflação americana aproxima-se da meta de 2% ao ano. O Cômite de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed), respondeu a essa tendência aumentando as taxas de juros para o intervalo de 1,0% a 1,25% ao ano, em junho deste ano. Economistas esperam mais um aumento da taxa de juros ao longo do ano. Com isso, um possível aumento nos custos de crédito pode antecipar o fim da fase de expansão de crédito americana.

Por mais que muitos sinais indiquem que os Estados Unidos estão próximos do fim desse ciclo, é difícil afirmar de fato quando a fase de retração iniciará. O crescimento global continua lento, mas especialistas indicam que esse crescimento deve continuar. Como pode ser visto no gráfico 3, a economia americana cresce a níveis inferiores aqueles que precederam as outras crises, ou seja, a situação não é de sobreaquecimento, mas sim de moderação.

Gráfico 3 – Evolução do PIB Americano x Média

Historicamente, o Fed terminou de aumentar as taxas de juros muito antes do fim dos ciclos de crédito. As últimas duas recessões ocorreram de 9 a 18 meses depois do Fed completar o aumento das taxas. Atualmente, a política monetária do Fed é de normalizar as taxas que estavam em níveis muito baixos. A postura do Fed pode ser considerada dovish, uma vertente favorável à realização de políticas monetárias graduais e acomodatícias, tendendo a preferir proteger a atividade econômica a combater a inflação.

Hoje, os balanços de bancos estão muito mais fortes que no passado, em decorrência de reforço na regulamentação seguida a crise de 2008. Esse fortalecimento do setor bancário aliada a política monetária frouxa dos maiores bancos centrais ao redor do mundo viabilizam a continuidade do acesso ao crédito,.

O atual ciclo de crédito americano ainda não chegou ao fim e não se sabe quando a próxima fase iniciará. Ainda assim, é importante ter cautela e evitar os mercados americanos mais sensíveis a aumento de juros e taxas de incumprimento (default rates), como o mercado de high yield bonds americano.  Aliás, oscilações na economia americana impactam o mundo todo. É importante ficar de olho no que está acontecendo por lá.

Posted by Igor Lodygensky, CEA in Investimentos, 1 comment
10 livros fora da curva

10 livros fora da curva

Saiba quais são os principais livros que grandes profissionais do mercado indicam.

Aprender com os melhores é importante e o seu primeiro passo é tomar conhecimento de suas leituras. Desta forma, os livros a seguir são retirados de notas de indicação dos autores colaboradores do livro Fora da Curva, que conta com a participação de diversos profissionais-referência do Mercado Financeiro Brasileiro.

Assim, selecionamos dez títulos, dos mais curiosos aos mais técnicos, apresentando breve história do profissional que o indicou e do livro indicado. Para os mais famintos, cada breve história segue de sua continuidade em “leia mais”.

André Jakurski

André Roberto Jakurski é sócio fundador e diretor da JGP Gestão de recursos Ltda e anteriormente era diretor executivo. Ele é responsável pelas atividades de renda fixa, equity e moeda nos mercados globais. Leia mais

Livro indicado: Security Analysis – Benjamin Graham

Security Analysis é um livro escrito pelos professores Benjamin Graham e David Dodd da Columbia Business School, que estabeleceram a base intelectual para o que mais tarde seria chamado de Value Investing. Leia mais

Antonio Bonchristiano

O Bonchristiano é membro do conselho e CEO da GP Investments. Ele ingressou na GP Investments em 1993 e é diretor administrativo desde 1995. Antes de ingressar na GP Investments, o Bonchristiano era sócio da Johnston Associates Inc., uma consultoria de finanças com sede em Londres, e trabalhou para a Salomon Brothers Inc. em Londres e Nova York. Leia mais

Livro indicado: Elon Musk – Ashlee Vance

Em Elon Musk: Tesla, SpaceX e a Quest for a Fantastic Future, a veterana jornalista de tecnologia Ashlee Vance fornece o primeiro olhar interno para a extraordinária vida e os tempos do empresário mais audacioso do Vale do Silicon. Leia mais      

Florian Baturnek

Florian Bartunek é sócio fundador e diretor de investimentos/diretor executivo da Constellation Investimentos e Participações Ltda (nome alternativo Constellation Asset Management). Leia mais

Livro indicado: Ações Comuns, Lucros Extraordinários – Philip Fisher

Este livro é um dos maiores clássicos da área de investimentos em ações. Sua leitura oferece elementos para uma melhor compreensão sobre o tema, além de técnicas de avaliação que possibilita ao investidor se envolvermais com os seus investimentos. Leia mais

Guilherme Aché

Guilherme Aché, sócio-fundador da Squadra Investimentos, gestora focada no mercado de ações. Economista formado pela Faculdade Cândido Mendes, Aché começou no Pactual no início dos anos 1990, ainda como estagiário, tornando-se, em 1993, chefe da área de análise de empresas. Leia mais

Livro indicado: Charlie Munger: the Complete Investor – Then Griffin

Charlie Munger, vice-presidente visionário de Berkshire Hathaway e parceiro financeiro indispensável de Warren Buffett, superou os índices de mercado repetidas vezes e ele acredita que qualquer investidor pode fazer o mesmo. Leia mais

Guilherme Affonso Ferreira

Guilherme Affonso Ferreira atua como Diretor Presidente da Bahema Participações S / A. Ferreira está como Gerente de Investimento no Rio Bravo Investimentos, na empresa têxtil Tavex e na varejista Pão de Açúcar. Leia mais

Livro indicado: Os tambores de São Luís – Josué Montello

Publicado em 1975, este livro é um romance em duas marchas. Numa delas, a acelerada, o escritor Josué Montello tenta retratar as várias fases da História do Maranhão. Josué Montello procurou com este romance, fixar sobretudo o problema do negro, suas lutas, suas tragédias. Leia mais

José Carlos Reis de Magalhões Neto

José Carlos Reis de Magalhães Neto, foi presidente da Tarpon Investimentos S.A. desde 4 de março de 2013 e atua como sócio fundador / sócio-geral e diretor executivo. Magalhães é o fundador da TIG Holding Ltd. e atua como Presidente do Conselho de Administração, Chief Executive Officer, Chief Investment Officer, Managing Partner e Vice-Presidente. Leia mais

Livro indicado: Purpose: The starting point of great companies – Nikos Mourkogiannis e Roger Fisher

Em Purpose, o pensador de renome mundial Nikos Mourkogiannis transforma toda a idéia de liderança em sua cabeça e mostra que a escolha entre valores e sucesso não é uma escolha. Mourkogiannis argumenta que as empresas devem satisfazer a necessidade de propósito – um conjunto de valores que define uma organização e inspira e motiva seus funcionários. Leia mais

Luiz Fernando Figueiredo

O Luiz Fernando Figueiredo é sócio fundador e diretor de investimentos do Grupo de Gestão de Ativos da Mauá Sekular Participações SA. Figueiredo é responsável pelo Comitê de Gestão de Carteira e Alocação na Mauá Sekular Participações SA. Ele também é responsável pelas atividades de gerenciamento de fundos da Mauá Sekular Participações SA. Leia mais

Livro indicado: Bancos Centrais: teoria e prática – Alan Blinder

Tendo ao mesmo tempo experiência didática como professor da Universidade de Princeton e experiência prática como vice-presidente do Federal Reserve, Alan Blinder explica o que é e o que faz um Banco Central. Leia mais

Luis Stuhlberger

Luiz Stuhlberger atua como Diretor de Investimentos e Gerente de Fundo da Credit Suisse Hedging-Griffo Asset Management S.A. Ele é o Diretor de gerenciamento de portfólio para essas três empresas. Atualmente, Stuhlberger administra um fundo de hedge no Brasil. Leia mais

Livro indicado: Tomorrows Gold: Asia’s Age of Discovery – Mar Faber

O reconhecido assessor de investimentos, Marc Faber, pretende encontrar o ouro de amanhã, as classes de ativos que superam o futuro. Longe de ser uma leitura sensacional das runas, este livro aprofunda o passado, para traçar a evolução das tendências dos investidores e avaliar a forma como novos padrões podem surgir. A mudança é o tópico. Leia mais

Meyer Joseph Nigri

Meyer Joseph Nigri é o sócio fundador da Tecnisa S.A. e atua como presidente da Diretoria Executiva. Nigri é Diretor Executivo e Diretor de Novos Negócios da Tecnisa S.A. desde janeiro de 2010 e atuou como Presidente e Diretor de Negócios Premium. Leia mais

Livro indicado: Em busca de sentido – Viktor Frankl

O fundador da Logoterapia mostra aqui como foi a sua própria experiência em busca do sentido da vida num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Apresenta também, numa segunda parte, os conceitos básicos da logoterapia. Leia mais

Pedro Damasceno

Pedro H. Damasceno é Diretor Gerente e Parceiro do Dynamo International no Dynamo Internacional Gestao De Recursos Ltda. e foi afiliado ao Dynamo Internacional Gestao De Recursos Ltda. desde março de 2006. Leia mais

Livro indicado: Merchants of Debt – George Anders

Primeiro publicado em 1992 (por Basic Books), esta reimpressão é oportuna agora na sequência da Enron e da WorldCom. Leia mais

Para conhecer mais sobre estes nomes, a Infomoney lançou uma série de episódios de entrevista com alguns destes profissionais. Veja aqui estas entrevistas e entenda cada vez mais sobre suas visões de mundo!

Posted by Henrique Rosa in Authors, 2 comments