Mês: Maio 2020

Carta de Conjuntura Mensal – Abril 2020

Carta de Conjuntura Mensal – Abril 2020

O mês de abril foi marcado não apenas pelas incertezas econômicas provenientes do coronavírus e de suas vítimas, mas também pela instabilidade política. O governo central não manter coesão num plano de reestruturar o país é mais um fator de preocupação, principalmente após a saída inesperada de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. A insatisfação do presidente em relação às medidas adotadas pelo ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta era clara e sua demissão já estava encaminhada, mas o desentendimento imediato entre Jair Bolsonaro e Moro em relação ao cargo da diretoria da Polícia Federal do estado do Rio de Janeiro foi culminante à incerteza sobre como o governo manterá sua própria sustentação. Independente do motivo alegado pelas partes, é necessário restaurar a união nacional nesse momento de pandemia.

No âmbito legislativo, foram aprovadas mais de trinta medidas provisórias em auxílio às entidades públicas e privadas no combate à Covid-19 e a pauta central do mês foi a promulgação da emenda constitucional nº106 através da PEC do “orçamento de guerra”, medida que aborda independência do Banco Central e sua atuação no mercado secundário e implicação de despesas temporárias em períodos de calamidade. Espera-se que essa medida restrinja os impactos na dívida do Tesouro Nacional – dado a projeção de R$ 500 bilhões de déficit primário para esse ano – assim como a fiscalização dos recursos distribuídos para estados e municípios no intuito de inibir fraudes.

O ânimo do mercado ainda é de alta volatilidade. Indicadores de risco como EMBI+ e o CDS de 5 anos dispararam na segunda metade do mês e, em conjunto com a alta volatilidade do dólar, mostram a continuidade do comportamento perante ativos de maior segurança pelos investidores em geral. Os sinais de instabilidade também apareceram na empenada da curva de juros após as demissões dos ministros. Esse cenário continuará enquanto o Brasil não demonstrar decisão uníssona para enfrentar a crise e até as ações adotadas surtirem efeitos. É esperado que as medidas do Banco Central o permitam estruturar a parte longa da curva através das compras e vendas de títulos em conjunto com a proposta de transparência orçamentária para que o ambiente de investimentos se torne propício.

Na parte curta da curva de juros, a mudança da postura do BC vem em linha com o que havíamos escrito na carta passada. Em live, durante o meio do mês, o presidente Roberto Campos Neto deu a entender que estava aberto a novos cortes na taxa Selic, contradizendo seu discurso anterior de que tanto o corte quanto as outras medidas tomadas durante março seriam suficiente para manter a estabilidade financeira no país. A decisão de cortar 0,75 p.p. da Selic foi um pouco acima da expectativa do mercado de 0,5, essa diminuição fez o dólar valorizar 2,51% fechando o dia 7 de abril a R$5,72. O câmbio continua apresentando alta volatilidade apesar das tentativas do BC de amenizar a desvalorização da moeda brasileira atuando com o uso de leilões de dólares e operações com derivativos, ao todo foi injetado quase 50 bilhões de dólares no mercado desde o início da crise do Covid até agora. Um ponto levantado no comunicado da reunião do Copom de abril foi de que eles estariam abertos a uma nova diminuição de 0,75 p.p. na próxima reunião, um valor razoável, visto que o corte atual foi conservador considerando a necessidade imediata de maiores incentivos econômicos para o combate contra a crise atual. Campos Neto se mostra confiante em relação a capacidade do Banco Central de regular a economia com o uso de política monetária, visto que os pacotes econômicos anunciados anteriormente vêm surtindo um bom efeito na liquidez de crédito, um vantajoso sinal para o BC de que estamos longe de cair em uma armadilha de liquidez.

A inflação vem se mostrando baixa conforme o esperado. O IPCA de abril ficou em -0,31%, o principal fator responsável por esse número foi a redução de 0,54% nos preços de transportes ocasionada pela redução do preço do barril de petróleo. A queda do petróleo era inevitável, com um cenário de desaceleração econômica cada vez mais intensa e diminuição da demanda por combustível, a queda foi uma consequência natural de momentos de crise como esse, que tem como característica gerar deflação. A expectativa do mercado é de que o IPCA desse ano seja de 1,97% de acordo com o boletim Focus, muito abaixo da meta definida pelo BC de 4,0%. Essa baixa expectativa de inflação colabora ainda mais com a perspectiva de a taxa Selic continuar a diminuir nas próximas reuniões.

No mês passado, escrevemos que a superação da crise seria dependente do sucesso de medidas de saúde e econômicas combinadas. Desde lá, muita coisa mudou. Alguns estados tiveram quarentenas relaxadas, e em outros, mesmo com o isolamento determinado pelas autoridades, foi grande o número de pessoas que saíram às ruas seja por ignorar a importância da doença, seja por necessidade de buscar sua renda. Apenas hoje, quando registramos por volta de 500 mortes diárias pela doença , que vemos medidas de lockdown sendo tomadas, não para achatar a curva de contágio de forma antecipada, mas por necessidade dado iminente colapso dos sistemas de saúde, como é o caso regiões populosas de Pernambuco, Maranhão, Pará e Rio de Janeiro.

Desde o começo do contágio no país, não houve consonância entre as esferas municipal, estadual e federal quando falamos de medidas de contenção do contágio. Claro que, dada a proporção continental do Brasil, cada região tem suas particularidades, de início da doença, pirâmide etária e capacidade de atendimento médico. Porém a ausência de diretrizes conjuntas tanto confunde a população a respeito do que fazer quanto pode levar a doença a cidades e estados vizinhos que tenham adotado uma conduta mais cautelosa. O mais próximo que chegamos de ter uma consonância nacional foi sob a gestão de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde, que reforçava a recomendação de isolamento social conforme as experiências internacionais. Porém, o Ministro foi demitido por seu discurso ser contrário ao do presidente, que desde o início da pandemia não teve o comprometimento esperado de um líder nacional. Jair Bolsonaro minimizou a gravidade da doença, agiu de forma contrária às medidas de saúde e preferiu tentar faturar com disputas políticas ao invés de agir para prevenir mortes, em um descaso único entre os países mais afetados.

Além da divergência em relação ao isolamento, o Brasil testou muito pouco. Sem uma testagem em massa e sem acompanhamento de quem teve contato com os infectados, o vírus se espalha entre mais facilmente entre os casos assintomáticos. Com isso, acabamos com uma subnotificação, que distorce a visão sobre o comportamento da doença e dificulta a tomada de decisões.

Em países que foram atingidos mais cedo, como os europeus, Coreia do Sul e China, a volta à normalidade está sendo discutida gradualmente com base em alguns princípios. Passados os picos de mortes e com uma boa taxa de leitos de UTI disponíveis, pouco a pouco barreiras à movimentação vão sendo retiradas e são acompanhados dois números: a taxa de ocupação dos leitos e o número de reprodução do vírus (quantas pessoas um infectado pode contaminar). Caso algum desses indicadores suba a nível preocupante, voltam a apertar as restrições. A situação crítica em capitais e interiorização do vírus pelo Brasil levanta dúvidas em relação ao desfecho do isolamento, o Brasil está poderá estar passando por seu pior momento no mês de maio. A falta dados robustos pela carência de testes e as dificuldades de gestão governamental da crise afastam por hora qualquer previsão de volta à normalidade.


Autores: Erik Kawano, Arthur Magdaleno & Caetano Konrad. 

Posted by Erik Naoki Kawano in Conjuntura Macro / Renda Fixa, 0 comments