Arthur Barbosa Magdaleno

Estudante de Ciências Econômicas na UDESC/ESAG. Gerente do Núcleo de Renda Fixa e Conjuntura Macroeconômica.
Estudante de Ciências Econômicas na UDESC/ESAG. Gerente do Núcleo de Renda Fixa e Conjuntura Macroeconômica.
Carta de Conjuntura Mensal – Fevereiro 2020

Carta de Conjuntura Mensal – Fevereiro 2020

O coronavírus causou um choque no cenário econômico internacional no mês de fevereiro, resultando em quedas nas bolsas europeias, americanas, asiáticas e brasileira decorrentes da preocupação com os efeitos da doença no mercado. Nesse mês foram registrados novos casos em diversos países, com ênfase na Itália e no Irã, que tiveram a maior taxa de aumento de contaminação fora da Ásia. As medidas que estão sendo adotadas pelos governos para conter a proliferação do vírus, como diminuição na mobilidade, fechamento de portos e paralisação de trabalhadores, vêm causando uma queda nas produções industriais locais, particularmente a queda da produção chinesa se mostra mais perceptível devido à importância que a China tem na cadeia de suprimentos de produtos e serviços em grande parte do mundo. O FMI reduziu para 5,6% a perspectiva de crescimento do PIB chinês, 0,4 pontos percentuais abaixo da projeção feita em janeiro, dando continuidade às séries de desacelerações que aparentavam ter acabado com o fim da guerra comercial. Estima-se que o impacto econômico negativo do vírus será semelhante ao ocasionado pela epidemia da SARS, que representou aproximadamente 0,5% do PIB da china em 2003.O mercado financeiro chinês foi bem agitado, logo no primeiro dia do mês o índice CSI 300 fechou em queda de 7,88% em relação ao fechamento anterior, apesar disso, houve uma recuperação progressiva ao longo do mês acarretada pelo discurso do presidente Xi Jinping, que deu indícios de ter intenção de proporcionar estímulos econômicos em resposta aos danos. O índice terminou fevereiro com queda de apenas 1,57% com 3940 pontos. As bolsas europeias também registraram baixa no mês, com os índices FTSE 100 (britânico) e Stoxx 600 (pan-europeu) tendo perdas de 9,68% e 8,54%, respectivamente, que se devem principalmente ao vírus. A saída do Reino Unido da União Europeia ocorrida não teve grandes efeitos aparentes, no momento o mercado não tem consenso em relação aos efeitos econômicos que o Brexit desencadeará, mais negociações devem ser realizadas ao longo do ano para definir as mudanças efetivas que entrarão em vigor.

No fim de fevereiro foi confirmado o primeiro caso do coronavírus no Brasil, afetando negativamente tanto a bolsa, que no dia teve uma queda de 6,95%, quanto o câmbio brasileiro. O índice Bovespa teve uma queda total de 8,43% no mês, motivada principalmente pelo temor causado pelo coronavírus e pela queda das bolsas internacionais. As vendas brasileiras para a China (responsável por 27% das nossas exportações) não sofreram mudança significativa em razão de grande parte dos produtos exportados serem comumente negociados antecipadamente por meio de mercado futuro (como soja e minério de ferro), no entanto, já é possível perceber uma diminuição nas importações de produtos industrializados chineses consequente da diminuição da atividade industrial. Não se espera que haja uma diminuição drástica nas vendas para a china, pois grãos e carnes compõe quase metade do valor das exportações totais e naturalmente alimentos não costumam ter grande variação de demanda.

Os resultados do IBC-Br de dezembro mostraram um fim de ano mais fraco do que o esperado. Calculado pelo Banco Central e divulgado antes do PIB (IBGE), é um indicador utilizado pelo Copom para estimar a evolução da atividade brasileira, como forma de tendência do PIB, mas não como sua prévia. No mês de dezembro, o IBC-Br teve variação de -0,27% em relação a novembro, acumulando crescimento em 2019 de 0,89%, o resultado anual mais baixo desde 2017. Em relação ao mês de novembro, dezembro apresentou resultados negativos na produção industrial (-0,7%), serviços (-0,1%) e vendas no varejo (-0,1%), o que frustrou as expectativas de maior impacto sobre o consumo da liberação de saques do FGTS, demanda que foi abalada pela forte inflação dos alimentos no mês com destaque para a alta das carnes.

Segundo a PNAD Contínua, a taxa de desemprego caiu para 11,2%, no último trimestre terminado em janeiro, frente a 11,6%, no trimestre de agosto a outubro de 2019. Comparando esse último trimestre com o mesmo intervalo em 2019, a taxa teve queda de 0,8 ponto percentual. Apesar da taxa ainda alta e recuperação gradual, em relação ao trimestre anterior houve uma melhora na composição do índice com aumento do emprego com carteira assinada (acréscimo de 540.000 pessoas) superior à queda no trabalho informal (diminuição de 479.000 pessoas). O aumento da formalização se deve em parte a empregos temporários para a temporada de fim de ano, cabendo avaliar como se sustentará essa estrutura nos primeiros meses de 2020.

Em janeiro se observou uma dinâmica nos preços administrados, alimentos e bebidas diferente do fim de 2019, onde estes sofreram com grande alta no preço das carnes, gasolina e energia elétrica. Nesse primeiro mês do ano, pode se considerar que a reversão no preço dos alimentos (alta de 0,39% em janeiro contra 3,38% em dezembro), aliada a baixo aumento dos demais componentes do índice, em especial os preços administrados, foram responsáveis pela inflação abaixo da esperada pelo mercado. O IPCA de 0,21% foi o menor resultado para um mês de janeiro desde o início do Plano Real, acumulando 4,19% nos últimos 12 meses. O IPCA-15 de fevereiro, considerado uma prévia do IPCA, registrou alta de 0,22%, o menor resultado para o mês em 25 anos. Os componentes com maiores altas refletem reajustes anuais de preços nos transportes públicos e táxis e em educação. Dos nove itens que compõem o índice, três apresentaram deflação, com destaque para alimentação e bebidas, que variou -0,10% frente a 1,83% em janeiro. De maneira geral, tivemos influência da redução do preço da energia elétrica, dado que em fevereiro passou a vigorar a bandeira verde, refletindo as condições hidrológicas mais favoráveis.

Na primeira reunião do Copom no ano, continuou a ser avaliado que as medidas de inflação indicando cumprimento da meta, com expectativas bem ancoradas, o cenário externo favorável com grandes economias também cortando juros e a alta ociosidade interna prescrevem corte na taxa básica de juros. Agora, apesar de o comitê ainda ver a conjuntura como prescritiva para outros cortes, foi priorizada a cautela na condução da política monetária. Como os estímulos do ciclo de cortes agem sobre a economia com defasagem, foi considerado necessário avaliar no futuro como se dará a transmissão para a atividade e inflação, especialmente dado que estamos em um cenário de juros historicamente mínimos e que recentes mudanças na intermediação financeira e mercado de crédito podem afetar a potência e velocidade da política. Dado isso, considera-se que nessa última carta o Copom tenha sinalizado o fim do ciclo de cortes. Pelo boletim de expectativas Focus, é esperado que a Selic se mantenha no patamar atual até o fim do ano. No que tange aos efeitos do coronavírus, o comitê avaliou que há potencial para uma maior desaceleração do crescimento mundial, sendo os efeitos relevantes dependentes de como o surto evoluirá.

A taxa de câmbio no Brasil está sofrendo constantes desvalorizações ao decorrer dos cortes sucessivos na taxa de juros realizados pelo Copom desde agosto do ano passado. No início da política monetária expansionista a volatilidade do dólar estava em 2,21% com mínima de R$/US$ 3,822 e máxima de R$/US$ 3,899 no mês, já em fevereiro deste ano a volatilidade foi de 7,62% com mínima de R$/US$ 4,237 e máxima de R$/US$ 4,498. No balanço de pagamentos está inserido a rubrica ativos de reserva, onde registra-se as operações cujos ativos estão sob controle do BC. O saldo da conta em janeiro apresentou superávit de US$ 705,6 milhões (0,48% do PIB mensal) ante US$ 813,5 (0,55% do PIB mensal) milhões do mesmo período do ano passado. Entretanto, o saldo acumulado em 12 meses vem decaindo desde 2017 e no final de 2019 apresentou um déficit de US$ 26 bilhões (1,42% PIB anual). A autoridade monetária se dispôs a ficar passivo em variação cambial e ativo em SELIC ao realizar leilões tradicionais de contratos de swap cambial com intuito de esterilizar a desvalorização e volatilidade da moeda assim como ofertar instrumentos de hedge cambial às empresas. O mercado aceitou 287,85 mil contratos de compra por parte da autoridade monetária no valor nocional de US$14,3 bilhões, entretanto 70 mil contratos iniciaram em fevereiro com valor nocional de US$ 3,5 bilhões com vencimentos em agosto, outubro e dezembro. Em março iniciarão 3 mil contratos e em abril outros 197,85 mil com valor nocional total de US$ 9,8 bilhões. A última oferta de leilões foi em 2018 no valor de US$ 1,5 bilhões durante a crise econômica na Argentina, a utilização desse instrumento não é usual e é exclusivo em períodos de grande turbulência.

Os Estados Unidos têm crescimentos do PIB há onze anos consecutivos, sendo o maior período de crescimento já registrado no país. Em um aspecto geral, os níveis de emprego e consumo apresentam solidez apesar do declínio recente em manufatura, investimentos e exportações decorrente da guerra comercial com a China. A preocupação atual do Federal Reserve está em elevar o índice de Preços para Gastos de Consumo Pessoal – PCE (Personal Consumption expenditures price index) – próximo à meta de 2% e, em decorrência disso, Jerome Powell deixou claro na primeira reunião do FOMC no ano que haverá pouco espaço para cortes de juros ao longo de 2020. Na reunião de fevereiro sobre panorama econômico, o vice-presidente do Fed, Richard Clarida, disse que o banco central americano ainda está monitorando os efeitos do coronavírus na economia e prefere não especular sobre impactos imediatos, a expectativa é de um choque notável na China, pelo menos neste primeiro semestre. Ele enfatiza a eficácia da política monetária no apoio ao crescimento e manutenção do mercado de trabalho, retoma a persistência do banco central em cumprir a meta de inflação e diz que aplicará medidas para manter a taxa de juros em nível apropriado conforme o surgimento de novas informações desse período de epidemia. Sobre as eleições, em fevereiro iniciou a disputa entre os democratas para decidir quem debaterá com o presidente Donald Trump em setembro. Os candidatos democratas buscam angariar votos tanto dos delegados eleitos pela população quanto da convenção composta por apoiadores (caucus). Na maioria dos casos, os Partidos Democratas de cada estado concedem os votos do colégio eleitoral aos candidatos que apresentaram a melhor performance nas convenções. A primária da eleição americana começou em Iowa, onde o ex-prefeito Pete Buttgieg obteve vantagem com 14 votos e manteve liderança com mais 9 votos em Nova Hampshire, entretanto cedeu o primeiro lugar a Bernie Sanders em Nevada. Por fim, Joe Biden surpreende a todos ao vencer na Carolina do Sul com 39 votos e por conta disso decorre a desistência de Buttgieg da campanha. Biden e Sanders acumulam 54 e 60 votos respectivamente e devem intensificar a disputa no dia 3 de março, onde 16 estados distribuirão seus votos aos candidatos. Essa data é conhecida como “Super-tuesday” e contém estados de grande peso como Califórnia, Texas e Carolina do Norte.

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Carta de Conjuntura Mensal Outubro 2019

Carta de Conjuntura Mensal Outubro 2019

Comentário Macroeconômico Mundial

No contexto global, a segunda metade do mês de setembro apresentou uma menor tensão entre Estados Unidos e China com relação a guerra comercial, devido à rodada de negociações que estava por vir no dia 11 de outubro, em Washington. Contudo, os resultados desse encontro representam passos pequenos na direção de resolver um conflito de tamanha escala, em linha com nossa expectativa exposta na carta anterior.
Entre as medidas mais importantes anunciadas, a China concordou em comprar de 40 a 50 bilhões de dólares da agricultura americana e o governo estadunidense comprometeu-se em não elevar tarifas de importação de produtos chineses. Além disso, houveram conversas sobre um possível pacto monetário, que, para os EUA, significaria uma menor manipulação do Yuan pelo governo chinês, porém nada de concreto foi estabelecido. Dessa forma, observamos que o mini acordo mantém em vigor todas as tarifas previamente impostas e não se refere aos principais assuntos que deram início a guerra comercial 15 meses atrás, como os subsídios à agricultura e o desrespeito às leis de propriedade intelectual por parte da China. Em razão disso, seguimos com nossa visão de que a guerra comercial deva se estender para 2020 sem qualquer direcionamento para uma resolução definitiva.
Ademais, outros conflitos emergiram na China com a escalada de tensões nos protestos de Hong Kong. As manifestações, que ocorrem desde junho, começaram como parte de um movimento contra a Lei de Extradição e ganharam uma escala muito maior, incluindo pautas como a liberdade e autonomia da ex-colônia britânica. Esse clima de violência afetou de maneira severa a economia, com a redução da expectativa de crescimento local em 2019 de 3% para 1%, além da queda de 23% nas vendas do varejo em agosto contra o mesmo período em 2018. Desse modo, entendemos esse cenário como mais uma fonte de incertezas na economia global, uma vez que Hong Kong é uma grande parceira comercial de Japão e Estados Unidos – economias que já demonstram fraqueza – e é porta de entrada de muitos produtos na China.
Outra fonte de incertezas em setembro foi o ataque de drones às refinarias na Arábia Saudita no dia 14, destruindo 5% da capacidade de produção de petróleo mundial em questão de instantes. Consequentemente, os preços do petróleo dispararam, chegando a subir quase 20% em um único dia e gerando a maior alta desde a Guerra do Golfo de 1991. Contudo, um mês após o incidente, a Saudi Aramco – companhia de petróleo saudita – anunciou que já retornou ao ritmo de produção que apresentava antes da tragédia, de modo que o preço do petróleo Brent já se encontra no mesmo patamar de antes do dia 14. Ainda assim, o ataque expôs uma fragilidade entre os maiores produtores da OPEP e levanta o questionamento sobre a sustentabilidade da rápida recuperação apresentada pela Aramco. Isto posto, esperamos maior risco associado às questões do petróleo no mundo, prejudicando ainda mais a já enfraquecida economia global.
Na Europa, a decisão sobre a nova rodada de quantitative easing pelo BCE sofreu oposição interna. Embora tenha sido aprovada, nove dos 25 membros do conselho votaram contra a medida, mostrando a divergência de opiniões dentro da instituição. Assim sendo, a nova presidente do BCE, Christine Lagarde, que deve assumir o cargo no dia primeiro de novembro, terá que alinhar as ideias do comitê se quiser manter as medidas de Draghi. Nessa linha, entendemos que a manutenção dos estímulos é fundamental para evitar uma desaceleração econômica ainda maior da zona do euro, que continua sofrendo das incertezas relativas ao Brexit e à trade war.
No Reino Unido, a situação do Brexit inseriu ainda mais incertezas no mercado após um desentendimento entre Boris johnson e Angela Merkel, em que a chanceler da Alemanha enfatizou que um acordo seria extremamente improvável. Nossas expectativas são de que um acordo antes do dia 31 de outubro, data limite estabelecida por Boris Johnson para saída do RU da UE, não se realize. No entanto, a lei aprovada pelo parlamento britânico que dá o poder para o primeiro ministro prorrogar por três meses a saída do RU deixa a situação do Brexit sem qualquer direcionamento.
A economia dos EUA, em setembro, mostrou-se enfraquecida, com dados das vendas do varejo abaixo do esperado, caindo 0,3% como resultado das tensões comerciais. Dados como este forneceram mais munição para os membros votantes do federal reserve que estão tomando uma posição mais dovish, frente aos cortes de juros. Os dirigentes do Fed estão, em comparação com meses anteriores, mais divergentes em relação ao seu posicionamento quanto ao grau de estímulo que a entidade deverá influenciar na economia do país, evidenciado pelo voto de corte nas taxas de juros em 50 pb pelo presidente do St Louis Fed, James Bullard. O Federal Reserve também anunciou que expandirá a sua balança com a compra de 60 bilhões de dólares em Treasury Bills, com o objetivo de injetar liquidez nos mercados de curto prazo, fortalecendo uma perspectiva de um corte na taxa de juros na próxima reunião em novembro. Acreditamos que, apesar das divergências dentro do Fed, acontecerá um corte de 25 pb, seguindo o padrão dos cortes antecedentes.

Outro ponto de estresse para o mercado americano é a abertura do processo de impeachment contra Donald Trump. A acusação teve origem em uma conversa com o presidente da Ucrânia em que Trump supostamente pede para que investiguem o filho de Joe Biden, que é o primeiro nas pesquisas dos pré-candidatos entre os democratas. Observamos que a possibilidade de impeachment seja baixa, visto que este é um processo demorado e as eleições para presidente dos EUA estão muito próximas.

Comentário Macroeconômico Brasileiro

No cenário doméstico, continuamos acreditando em um Brasil com uma recuperação gradativa para o médio prazo, porém, ainda lenta para o ano de 2019. Essa perspectiva se deve aos dados divulgados não tão fortes quanto as expectativas do mercado – vide IBC-BR, Pesquisa Mensal de Serviços e Vendas no Varejo – que tem impactado nas projeções para o PIB deste ano.

Fonte: Bacen

Com relação às políticas monetárias conduzidas pelo Bacen, vislumbramos um corte da taxa SELIC no final de outubro de mais 50 bps – resultando em 5,0%. Reiteramos que os dados de inflação estão vindo abaixo do esperado, como exemplo, a deflação de 0,04% em setembro de 2019 – menor taxa para o mês desde 1998 – o que auferiu uma inflação anualizada pouco menor que 3%.
Isto posto, avaliamos maior espaço para uma Selic inferior a 5%, convergindo, em um futuro de curto prazo, para nosso cenário base de 4,5%. Em cenários mais otimistas, eventualmente, a SELIC poderia chegar a 4%, caso a economia e, consequentemente, a inflação continuem com este comportamento.

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