inflação

Carta de Conjuntura Macro – Maio

Carta de Conjuntura Macro – Maio

A melhora nos resultados domésticos relativos à atividade econômica, com destaque para o mercado de trabalho, e a piora do quadro inflacionário doméstico foram os principais destaques para o mercado doméstico durante o mês de maio, enquanto no âmbito internacional as incertezas continuam a gerar uma maior percepção de risco para o cenário prospectivo.

Os resultados referentes ao 1T22 para a economia doméstica vieram em linha com as expectativas, reiterando um cenário de melhora para a atividade econômica. Em paralelo, o cenário inflacionário permanece desafiador, apesar de uma leitura mais branda para o índice no mês de maio, os indicadores apontam para pressões disseminadas sobre os componentes.

No âmbito internacional, as decisões de política monetária foram destaque, ao passo em que as pressões sobre os níveis de preços continuam persistentes, com alguns fatores, como a manutenção do conflito no leste europeu, gerando impactos adicionais nas percepções de risco, fatores que têm dificultado o processo de ancoragem das expectativas pelo mercado.


Atividade econômica – Resultados recentes reiteram melhora no cenário econômico, com destaque para o mercado de trabalho

No início do mês de junho, o IBGE divulgou os resultados referentes ao Sistema de Contas Nacionais Trimestrais para o primeiro trimestre de 2022. As expectativas para a atividade econômica, frente ao ambiente observado no mês anterior, se mantiveram alinhadas com as expectativas, tendo em vista os recentes dados de alta frequência e indicadores de confiança, já reforçando uma tendência de melhoria. Os resultados para o primeiro trimestre do ano vieram em linha, com mercado de trabalho ainda aquecido e as projeções e expectativas para o cenário à frente mantidas, com expectativa de crescimento modesto para 2023.

O PIB (Produto Interno Bruto) registrou alta pelo terceiro trimestre consecutivo, com crescimento de 1,7% no trimestre, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Pela ótica da oferta, o destaque foi para o Setor de Serviços, cujo qual obteve uma expressiva expansão de 3,7% no período, em contrapartida, para os demais setores que compõem o PIB pela ótica da produção, os resultados foram negativos, com os setores da Indústria e da Agropecuária recuando 1,5% e 8,0%, respectivamente. A forte queda para o segmento Agropecuário adveio, majoritariamente, dos impactos negativos das condições climáticas adversas sobre algumas culturas, sobretudo da soja.

Pela ótica da demanda, os destaques foram o consumo das famílias e os gastos do governo, com expansão de 2,2% e 3,3%, respectivamente. Em contrapartida, a formação bruta de capital fixo registrou forte recuo de 7,2% na comparação anual, sendo esta a primeira queda após cinco trimestres consecutivos de crescimento. Por fim, no setor externo, as exportações de bens e serviços cresceram 8,1% enquanto as importações de bens e serviços recuaram 11,0%.

Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o 1T22 avançou 1,0% na série com ajuste sazonal, com destaque novamente para o setor de Serviços, que obteve alta de 1,0%, fortemente beneficiado com a retomada das atividades, mediante a melhora do ambiente pandêmico. Adicionalmente, a indústria manteve-se estável, com crescimento tímido de 0,1% no período, enquanto o setor Agropecuário, por sua vez, incorporando os impactos negativos das condições climáticas, retraiu em 0,9%.

Os resultados demonstram uma Indústria ainda com dificuldades, ainda não recuperada dos descasamentos provocados pela pandemia e dos elevados gargalos produtivos. O elevado preço das matérias primas e a falta de insumos permanecem como gargalos para o setor, fatores estes que, somados a uma maior demanda por serviços, têm dificultado a recuperação do setor. Para o setor de serviços, os segmentos de Transportes e Serviços prestados à família obtiveram altas significativas, refletindo a melhora do quadro econômico e pandêmico.

Tabela Descrição gerada automaticamente

Fonte: IBGE. Elaboração: Clube de Finanças

Após os resultados positivos de março, os dados divulgados pelo IBGE, na PNAD, demonstraram que o mercado de trabalho continua aquecido, registrando forte geração de empregos e expansão da massa salarial. Como destaque, ressalta-se a queda observada na taxa de desemprego, que atingiu 10,5% da força de trabalho no trimestre encerrado em abril, valor bem abaixo do observado no mesmo período do ano anterior, de 14,8%. Este resultado situa-se ainda, em patamares inferiores aos meses pré-pandêmicos.

Adicionalmente, os números do Banco Central, considerando sua metodologia própria, também apresentam resultados positivos para o mercado de trabalho, com a taxa de desemprego mensal em 9,6%, ao mesmo tempo em que a taxa de participação e a população ocupada vêm crescendo.

A melhora observada na taxa de desemprego se deve ao aumento no número de contratações, com crescimento da população ocupada, cujo contingente atingiu 96,5 milhões, uma expansão de 10,3% na comparação anual, superando o avanço na força de trabalho de 5,1% – que contempla a população que está à procura de emprego e a população ocupada. É esperado um quadro contínuo de melhoria para o mercado de trabalho ainda durante o primeiro semestre, quadro este que deve pouco a pouco perder dinamismo a partir da segunda metade do ano, onde é esperado uma redução da atividade, com a absorção pelo mercado dos impactos defasados da política monetária.

As projeções e expectativas de crescimento para 2023 se mantém em linhas com as leituras anteriores, com um avanço modesto da atividade próximo a 0,5%, tendo em vista o atual cenário de desaceleração econômica mundial e o impacto defasado da alta dos juros, que deve surtir maior efeito sobre a atividade a partir do segundo semestre de 2022. Em paralelo, apesar do crescimento tímido com um balanço de riscos negativo, outros fatores podem trazer melhorias ao atual cenário, como o impacto positivo das políticas monetárias contracionista, reduzindo a pressão sobre os índices de preços, e a recuperação do mercado de trabalho, que conjuntamente devem exercer impacto positivo sobre a demanda agregada. Adicionalmente, a melhora do ambiente fiscal vislumbrada nos últimos meses garante maior fôlego para o setor público, que pode recorrer a novos estímulos fiscais e, desta forma, gerar novos estímulos à demanda agregada da economia.


Inflação e Política Monetária – Cenário inflacionário se deteriora, com pressões sobre os níveis de preços disseminadas, e ciclo de alta permanece, mas em novo ritmo

A inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, avançou 0,47% no mês de maio, valor abaixo das expectativas do mercado e das leituras anteriores. No acumulado dos últimos doze meses, o IPCA acumula alta de 11,73%, redução de 0,28 p.p. na comparação com o acumulado observado nos 12 meses imediatamente anteriores à maio. O resultado apresentou forte retração na comparação com o índice de preços de abril, de 1,06%, no entanto, o bom resultado não trouxe melhorias efetivas para o cenário inflacionário, já que a desaceleração foi puxada, sobretudo, por leituras mais baixas em segmentos voláteis, como alimentação e preços administrados. O elevado índice de difusão (72,4%), que segue nos níveis mais altos observados desde 2002-2003, e o avanço da média dos núcleos, que vem registrando as maiores leituras desde o início da pandemia, tem demonstrado que as pressões inflacionárias têm ganhado maior disseminação.

Nesta nova leitura, oito grupos dos nove pesquisados obtiveram alta. O maior impacto no índice cheio foi do grupo de Transportes, com alta mensal para o mês de maio de 1,34%, impactando em 0,30 p.p. o índice cheio. Apesar do avanço, a alta nos preços dos combustíveis foi menor do que o observado em leituras anteriores, com o fim dos repasses para o consumidor das altas nos preços das refinarias ocorridas em março. O grupo Habitação foi o único a registrar queda nos níveis de preços, com variação negativa de -1,70% no mês, refletindo a melhora dos preços da energia elétrica.

A redução do IPCA para o mês de maio foi puxada, sobretudo, pela queda nos preços administrados, cujos quais respondem por aproximadamente 25% do IPCA total. A variação conjunta dos preços administrados em maio foi de -0,51%, forte recuo na comparação com abril, onde o grupo obteve alta mensal de 0,55%. Para os preços livres, o mês de maio registrou alta de 0,83%, valor que representa uma desaceleração frente a abril (1,25%).

O grau de incerteza acerca do cenário à frente segue elevado. Além do atual cenário inflacionário de curto prazo, a expansão da atividade e os bons resultados para o mercado de trabalho têm acrescido o risco de pressões inflacionárias persistentes advindas pelo lado da demanda. A maior pressão em maio dentre os preços livres foi do setor de serviços, com variação de 0,85% no mês, resultado que já demonstra uma maior pressão inflacionária ocasionada pelo crescimento da demanda, com a melhora da atividade e dos indicadores de confiança. Adicionalmente, a persistência do conflito no Leste Europeu mantém para o atual cenário um risco altista sobre os níveis de preços, com um eventual embargo europeu ao petróleo russo impactando sobre os preços dos combustíveis praticados pela Petrobras.

Por outro lado, outros fatores corroboram para o aumento do grau de incerteza, mas gerando perspectivas de impactos baixistas sobre os níveis de preço. Ao longo do mês de maio, a inflação voltou a entrar na pauta do Congresso e do governo, visando introduzir medidas que mitiguem a alta nos preços. Diversas propostas foram levantadas visando impactar os preços dos combustíveis, energia elétrica e serviços de telecomunicações, como o PLP 18/22, limitando as alíquotas de ICMS, e a PEC 16, que propõe financiar por meio de repasses da União o corte por 6 meses do ICMS sobre o GLP, diesel e etanol.

No âmbito da Política Monetária, dentro do esperado pelo mercado e em congruência com o precificado na curva de juros, o Copom elevou a taxa Selic em 50 bps na reunião de junho. Segundo o comunicado, o fim do ciclo permanece em aberto, com continuidade do ajuste para a reunião de agosto de igual ou menor magnitude à de junho.

Neste novo comunicado, o comitê trouxe uma comunicação mais dovish, informando nova redução do ritmo de ajuste, mesmo admitindo uma piora conjuntural, com aumento das incertezas desde a última reunião. O Copom trouxe sinalizações de que a convergência para a meta não ocorrerá em 2023, uma vez que seria necessário um aperto monetário mais incisivo.

Na Ata, o comitê trouxe sinalizações que indicam para um fim de ciclo, reiterando as dificuldades para trazer a inflação junto à meta para 2023 e as defasagens da política monetária, não sendo possível observar, até então, grande parte dos impactos das políticas contracionistas sobre a atividade e, consequentemente, sobre os níveis de preços.

O anúncio das medidas propostas pelo governo refletiu sobre a curva de juros, já sendo precificados pelo mercado, com ganho de inclinação na curva a partir de prazos superiores a três anos. Conjuntamente, a ponta longa da curva deslocou-se para cima, adquirindo também maior inclinação, incorporando consigo uma maior percepção de risco fiscal pelos agentes.

Fonte: Anbima. Elaboração: Clube de Finanças


Política Fiscal – Dados reiteram cenário positivo, com destaque para a arrecadação, mas risco de novas medidas fiscais trazem incerteza ao atual cenário

No âmbito fiscal, as perspectivas para o cenário presente continuam positivas, com melhora nas projeções de resultado, em contraponto, o cenário adquire certo grau de incerteza, com a tramitação de eventuais novas medidas fiscais por parte do governo para controle inflacionário.

Como já mencionado nos meses anteriores, o cenário fiscal permanece positivo no que tange às arrecadações do governo. Os fatores que contribuíram para o bom resultado primário em 2021 permanecem, como a inflação elevada, a alta nos preços do petróleo e a depreciação no câmbio. Adicionalmente, outros fatores, como a melhora na atividade econômica em 2022, têm corroborado para o cenário prospectivo atual.

Segundo dados do Instituto Fiscal Independente, a Receita Primária do governo central deve ter crescido 10,8%, em termos reais, no acumulado dos primeiros cinco meses de 2022, enquanto o governo central deve ter obtido um superávit primário de R$ 38,9 bilhões para o mesmo período, valor que supera em R$ 19,0 bilhões o resultado obtido nos primeiros cinco meses de 2021.

Apesar dos resultados positivos vislumbrados até então, a possibilidade de inserção de novas medidas visando conter a pressão nos níveis de preços tem trazido maior incerteza para o cenário fiscal atual, com uma leve piora nas perspectivas de curto e médio prazo.


Setor Externo – Inflação persistente e acima do esperado alerta as principais autoridades monetárias, ao passo em que a continuação da guerra na Ucrânia e lockdowns na China levam a piora no balanço de riscos

O último mês ficou marcado pelo aperto monetário por parte dos principais bancos centrais ao redor do globo, ao passo em que temores de uma recessão e piora no balanço de riscos exigiram uma atitude mais assertiva das autoridades monetárias.

No leste europeu, o conflito entre Ucrânia e Rússia continua a se prolongar, sem demonstrar um sinal de interrupção. A continuidade da guerra ainda pressiona o preço de commodities, principalmente milho, trigo, petróleo e gás natural, dado o cenário desfavorável e as sanções impostas pelos principais países ocidentais ao Kremlin.

Na China, cidades como Pequim e Shanghai passaram por um processo de reabertura recentemente, mas lockdowns em escalas menores continuam a ser implementados pelo governo chinês. A política de zero tolerância ao COVID na China se mostra persistente, de forma que esta reflete negativamente sobre o crescimento potencial  da economia do país asiático para 2022 e sobre as cadeias produtivas globais, resultando em mais gargalos e interrupções na produção.

Na Zona do Euro, a leitura para a inflação no mês de maio veio de acordo com as expectativas, em 0,8%, ante 0,6% em abril. As maiores altas registradas vieram do custo de energia (1,9%) e comida, álcool e tabaco (1,3%). O índice anualizado apresenta alta de 8,1%, muito acima da meta de 2% do ECB (European Central Bank), o que levou ao comunicado do banco central de que começará a elevar os juros a partir do mês de julho.

Já o PMI composto (54,8) na região veio abaixo das estimativas (54,9) e apresentou redução ante abril (55,8). A desaceleração se deu exclusivamente como um resultado de uma expansão menor do setor de serviços em meio a sinais que demonstram enfraquecimento da recuperação pós-lockdown. O desemprego, de outra forma, continuou estável a 6,8% para o mês de abril de 2022, significando uma queda de 96 mil de desempregados e uma  taxa de desemprego de jovens caindo de 14% a 13,9%.

Os títulos públicos com prazo em 10 anos da Zona do Euro responderam com um aumento na taxa contratada, ao passo em que o mercado já precifica um aumento da taxa de juros básica do bloco em julho, conforme o comunicado do BCE.

Gráfico, Histograma Descrição gerada automaticamente

Fonte: BCE. Elaboração: Clube de Finanças

Nos EUA, a leitura mais recente do payroll mostrou criação de 390 mil empregos no país – acima das expectativas de 325 mil -, sendo este o menor valor nos últimos 12 meses, mas, ainda sim, superior à média dos 12 meses anteriores à pandemia (198 mil).

A inflação, medida pelo CPI, atingiu o pico de 8,6% ao ano no mês de maio – maior nível desde dezembro de 1981 -, bem acima das expectativas de 8,3%. A inflação acelerou 1% para o mês, acima das expectativas de 0,7%, em meio a um aumento geral de custos, com os índices de abrigo (0,6%), gasolina (4,1%) e comida (1,2%) exercendo a maior contribuição para o resultado.

O número não foi bem-visto pelo mercado, e nem pelo comitê de política monetária americana, o FOMC. Jerome Powell, chairman do comitê, dava como certo um aumento de 50 bps na reunião de junho. No entanto, a alta inesperada da inflação e a reação negativa dos agentes, aliado à preocupação de uma futura recessão econômica requereu uma alta de maior magnitude, com o Fed optando, de forma quase unânime, por uma alta de 75 bps na taxa de juros americana. Dessa forma, a taxa básica de juros americana está estabelecida na faixa entre 1,5% e 1,75% ao ano – a mais elevada desde março de 2020.

O PMI composto para o mês de maio (53,6), de forma similar à Zona do Euro, apresentou uma queda ante o resultado do mês de abril (56), refletindo o aumento de preços e a disrupção da cadeia de suprimentos.

Já os títulos com maturação em 10 anos americanos continuam em movimento de alta, com um pico recente, devido a maior magnitude do aumento feito pelo Fed, enquanto a autoridade monetária procura controlar a pressão inflacionária no país.

Gráfico, Gráfico de linhas Descrição gerada automaticamente

Fonte: Refinitiv. Elaboração: Clube de Finanças

Já na China, a inflação continuou inalterada, a 2,1% ao ano, inferior às expectativas de 2,2%. Os alimentos apresentaram o maior aumento no índice pelo segundo mês seguido – 2,3% em maio e 1,9% em abril -, ao passo em que o consumo voltou a ganhar força com a redução de restrições em Shanghai e Pequim.

De forma parecida, o PMI de manufatura chinesa apresentou melhora ante o mês anterior, de 46 para 48 pontos, dado o afrouxamento da política de lockdowns. No entanto, o setor de serviços continua sendo prejudicado pela política, de forma que o PMI composto para o mês de maio registrou 42,2.

Em suma, o cenário macroeconômico global ainda se mostra desafiador, com a persistência do conflito no Leste Europeu continuando a pressionar o preço de commodities e a política de lockdowns na China impactando negativamente a cadeia produtiva em escala global.

Ainda no cenário internacional, os apertos monetários mais incisivo pelos principais bancos centrais, com aumentos de maior magnitude nos juros, visam convergir a inflação para patamares próximos à meta até 2023 e 2024.

Já em âmbito nacional, a atividade econômica apresentou crescimento pelo terceiro trimestre consecutivo, puxado principalmente pelo bom desempenho do setor de serviços, ao passo em que a indústria ainda sofre com problemas nas cadeias de produção e de insumos. O cenário fiscal se mantém com perspectivas positivas, apesar das novas medidas discutidas na Câmara e no Senado, que ao buscar conter a pressão nos níveis de preços, trazem maior incerteza ao cenário prospectivo de curto e médio prazo.

Autores: Mateus Melo Galdino, Luís Guilherme Uliana e William Pedroso
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Carta de Conjuntura Macro – Abril

Carta de Conjuntura Macro – Abril

A melhora nos resultados domésticos relativos à atividade econômica, a persistência inflacionária e o aumento das incertezas globais, com a continuidade da guerra na Ucrânia, foram os principais destaques para o mês de abril.

A manutenção do conflito no leste europeu tem aumentado as incertezas quanto aos impactos sobre a atividade no continente europeu. Em paralelo, o cenário de inflação na Europa, mais brando que nos Estados Unidos, sugere um aumento de juros mais gradual pelo Banco Central Europeu (BCE) do que pelo FED, que por sua vez, tem encontrado um ambiente conjuntural mais desafiador. Neste cenário, há o risco de que seja necessário aumentar a taxa de juros acima do que está precificado pelo mercado neste momento, que é uma taxa de juros do FED funds de 3,3% para meados de 2023.

Adicionalmente, o risco de uma forte desaceleração na China, com as fortes restrições adotadas pelo governo, acentua o quadro de incertezas no âmbito internacional. Em contraste, dados domésticos surpreenderam positivamente, com o mercado de trabalho aquecido e uma melhora marginal nos níveis de confiança, resultando em revisões altistas para o PIB em 2022.


Atividade econômica – Melhora nos indicadores e mercado de trabalho aquecido reforçam melhora da atividade econômica para 2022

Apesar do aperto monetário, os dados relativos à atividade econômica vêm apresentando melhora, mediante a expansão do mercado de trabalho, ao impacto positivo dos estímulos fiscais e a melhoria do quadro pandêmico, com redução mais acentuada das medidas restritivas. Dados de alta frequência e indicadores recentes de confiança reforçam a tendência de melhoria, a confiança do consumidor para o mês de abril teve alta expressiva, principalmente para os consumidores de mais baixa renda, adicionalmente, o setor industrial e de serviços também apresentaram aumentos significativos nos índices de confiança.

O mercado de trabalho continua apresentando números positivos, com crescimento do número de empregos e da massa salarial real, demonstrando melhora e sugerindo um mercado de trabalho aquecido. Os dados do CAGED apresentaram forte geração de empregos no setor formal, fechando o primeiro trimestre com 615 mil empregos gerados. Adicionalmente, o resultado da PNAD também reforçou esta tendência positiva, com aumento de aproximadamente 1,6 milhão de trabalhadores no mês de março.

As projeções para a atividade econômica obtiveram leve melhora para o ano de 2022, com projeção de avanço do PIB de 1,0%, segundo o Instituto Fiscal Independente. Resultado este que reflete a resiliência da atividade econômica no curto prazo e os estímulos fiscais adotados pelo governo. As melhoras nas expectativas e nas projeções do mercado advém da surpresa obtida com o resultado positivo do último trimestre de 2021 e a melhora dos indicadores econômicos durante o início do ano de 2022.

Adicionalmente, é esperado um forte incentivo sobre a atividade doméstica com o ingresso dos recursos dos saques do FGTS na massa de rendimentos, a liberação de cerca de R$ 30 bilhões entre abril e junho deve surtir efeitos positivos sobre a demanda agregada e estimular a atividade no curto prazo.

Entretanto, mesmo com alguns indicadores apresentando melhorias, o cenário ainda permanece desafiador, as perspectivas econômicas carregam certo grau de volatilidade e incerteza acima do usual, mediante o prolongamento do conflito militar no leste europeu e o cenário inflacionário, cujo qual tem gerado um aperto monetário nas economias.

No âmbito internacional, o FMI reduziu a expectativa de crescimento do PIB mundial para 2022 e 2023, de 4,4% para 3,6% e de 3,8% para 3,6%, respectivamente, culminando em reduções de 0,8 e 0,2 p.p. na comparação com as projeções de janeiro. As revisões baixistas sobre a atividade econômica global advêm, em grande medida, pelos impactos diretos da guerra nas economias da Rússia e da Ucrânia e pelos efeitos indiretos nas demais economias, sobretudo, do bloco Europeu.

Fonte: FMI. Elaboração: Clube de Finanças

WEO: World Economic Outlook


Inflação e Política Monetária – Revisões altistas para inflação em 2022 e continuidade do aperto monetário

A inflação ao consumidor em abril, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), registrou alta mensal de 1,06%, o maior resultado registrado para o mês desde 1996. No acumulado dos últimos doze meses, a inflação registra alta de 12,1%, acima dos 11,3% observados nos doze meses imediatamente anteriores.

A pressão sob os níveis de preços segue disseminadas entre os componentes, com oito dos nove grupos de produtos e serviços observados apresentando alta no mês de abril. Os maiores impactos sobre os índices de preços vieram dos alimentos e dos combustíveis, sendo o grupo de alimentação e bebidas responsável pela maior variação no mês e maior impacto no índice cheio (alta de 2,06% e 0,43 p.p. de impacto). Adicionalmente, o grupo transportes obteve a segunda maior alta, sendo fortemente impactado pelo aumento dos preços dos combustíveis. Conjuntamente, os dois grupos contribuíram com aproximadamente 80% da taxa de variação do IPCA em abril.

No cenário base, as projeções apontam para uma alta no IPCA próxima a 8,0% em 2022, refletindo os persistentes choques nas cadeias de suprimentos globais, intensificados pelo prolongamento do conflito militar no leste europeu e pelas medidas restritivas adotadas na China para conter o avanço das novas ondas da Covid-19.

Apesar de algumas medidas contribuírem para reduzir os impactos inflacionários no curto prazo, como a redução das alíquotas do IPI, o atual cenário de forte pressão sobre os níveis de preços tende a permanecer, prevalecendo riscos altistas. Neste cenário, de inflação corrente em nível elevado, é esperado uma inércia inflacionária ainda maior para o ano de 2023.

Neste cenário e em linha com as expectativas do mercado, o COPOM decidiu aumentar em 1 p.p. a taxa básica de juros, para 12,75%. O Comitê sinalizou ainda, para mais uma alta na próxima reunião, contudo, de menor magnitude, caso os cenários projetados pelo BACEN se confirmem.

A ata do COPOM manteve os principais pontos elencados na comunicação anterior, sem novidades significativas, adicionando, no entanto, uma abordagem mais cautelosa mediante a deterioração da dinâmica inflacionária e o impacto desta sobre as projeções de longo prazo, fato este que vem ocorrendo de forma bem mais intensa do que o esperado inicialmente, e que contribui para que o comitê deixe em aberto a decisão para a próxima reunião.

Ao que sinaliza a ata do COPOM, bem como as expectativas do mercado, é esperado que haja apenas mais uma alta, com o fim do ciclo de aperto em junho. No parágrafo 13, o Comitê destaca que “o ciclo de aperto monetário corrente foi bastante intenso e tempestivo” e, mediante as defasagens dos efeitos da política monetária sobre a atividade, os efeitos contracionistas ainda não surtiram total efeito sobre a economia.


Política Fiscal – Resultados fiscais continuam surpreendendo positivamente e mantém expectativa de novo superávit

Em linha com o mês anterior, os resultados fiscais vêm apresentando melhorias, com o PIB nominal e inflação mais elevados traduzindo em expectativas maiores de arrecadação, adicionalmente, a persistência do conflito no leste europeu e a consequente manutenção dos preços de commodities em patamares elevados, sinalizam para um crescimento adicional nas receitas do governo.

Apesar das medidas de incentivo fiscal, como a redução no IPI, que deve retrair em cerca de R$ 5 bilhões a arrecadação no ano, e o aumento de gastos, as projeções apontam para um novo superávit em 2022. Em paralelo, as expectativas para os anos seguintes são de resultados primários próximos a zero, culminando em uma dívida bruta e líquida ainda crescente ao longo dos próximos anos.

Apesar da melhora nos resultados fiscais, as percepções de risco ainda se mantém de certa forma inalteradas, os bons resultados fiscais obtidos ainda não se transformaram em uma redução dos prêmios da curva de juros, tendo em vista a persistência nas percepções de risco, com a mudança no teto de gastos e a não descartável possibilidade de novas alterações na lei que regula este instrumento para os próximos anos. O teto de gastos é uma importante âncora fiscal para o país, responsável por ancorar as expectativas de inflação.

Fonte: Anbima. Elaboração: Clube de Finanças


Setor Externo – Continuidade do confronto na Ucrânia e surto de COVID-19 na China aumentam os riscos no curto prazo

O mês de abril ficou marcado pelo aperto na política monetária americana, incertezas com relação à atividade econômica chinesa, ao passo em que a política de covid zero continua em andamento, e a escalada do confronto no leste europeu entre Rússia e Ucrânia.

O confronto no leste europeu se mostra persistente, com ambas as partes não chegando a um acordo para encerrar o conflito entre os países. Como resultado, Finlândia e Suécia, países próximos ao kremlin, optaram por ir contrário ao seu costume de neutralidade, e abriram processo para aderir à OTAN, movimento mal-visto pelo governo russo, que teme uma expansão da infraestrutura militar.

A manutenção do conflito continua a provocar um choque negativo persistente sobre as commodities, principalmente sobre as energéticas e as agrícolas, como o trigo e o milho, que continuam em tendência altista após um breve período de estabilização a níveis de preços altos.

Fonte: Yahoo Finance. Elaboração: Clube de Finanças

Na Zona do Euro, a produção industrial para o mês de março retraiu em 0,8%, número melhor que o esperado (-1%) e inferior ao crescimento apresentado em fevereiro (1,7%). O índice foi afetado principalmente pelas quedas de 4% em produção energética e 2,7% de bens de capital. As altas de 2,8% de bens de consumo não-duráveis e 6,6% de bens de consumo não foram suficientes para deixar o índice em patamar positivo.

Já a inflação no bloco continua no seu maior patamar para o mês de abril, estabelecida em 7,4% anualizados. As maiores contribuições para a inflação anualizada da Zona do Euro vêm de energia – responsável por 3,7 p.p. do índice -, seguido por serviços (1,38 p.p.), alimentos, álcool e tabaco (1,35 p.p.) e bens industriais não-energéticos (1,02 p.p.). A taxa de inflação está muito acima da meta de 2%, estabelecida pelo ECB, e não deve voltar a patamares reduzidos tão cedo. A crise energética, exacerbada pela invasão russa à Ucrânia, e os persistentes gargalos na cadeia de suprimentos ao redor do globo continuam pressionando a inflação global, deteriorando o balanço de riscos e exigindo medidas mais assertivas por parte dos principais bancos centrais.

Demonstrando o “pessimismo” no bloco, o índice de confiança do consumidor na Zona do Euro registrou -22 pontos no mês de abril, a pior marca desde abril de 2020. O índice no mês de março já havia chegado a -21,6 – a piora no indicador demonstra a reação do consumidor à continuidade do conflito no leste europeu, que afeta o abastecimento de diversas commodities e provoca uma elevação generalizada de preços.

Por fim, o PMI composto no bloco atingiu a marca de 55,8 no mês de abril, ante 54,9 do mês de março e de acordo com as expectativas do mercado. A leitura do índice apontou para o maior crescimento na atividade do setor privado nos últimos sete meses, ao passo em que o setor de serviços (55,7) se recupera com menores restrições atreladas a COVID-19, ajudando a ofuscar a diminuição em manufatura (55,5), a menor nos últimos 15 meses. O desemprego no bloco decresceu para 6,8% para o mês de março, levemente acima das expectativas de 6,7%. As principais quedas registradas foram na Alemanha (2,9% ante 3%) e Itália (8,3% ante 8,5%), enquanto a França firmou-se em 7,4%.

Nos EUA, o Fed decidiu por aumentar a taxa de juros básica em 50 bps, o maior aumento em mais de duas décadas. A elevação, apesar de esperada, demonstra que o Federal Reserve está disposto a aumentar o ritmo nos incrementos de alta de juros, botando na mesa um debate para um próximo aumento na casa de 75 bps – no momento, grande maioria do comitê é contrária a um aumento de tamanha magnitude. Vale ressaltar, no entanto, que o comitê também era em sua grande parte contrário a um aumento na casa de 50 bps, mas as condições adversas no balanço de riscos fizeram com que o Fed adotasse tal medida.

A inflação no país registrou 0,3% para o mês de abril – 8,3% anualizados ante 8,5% em março. O número veio acima das expectativas de 8,1% ao ano. Apesar da queda de 6,1% no preço da gasolina, o aumento em gás natural (3,1%) e eletricidade (0,7%), aliados ao aumento em alimentos (0,9%) e abrigo (0,5%) foram os principais contribuintes para o resultado.

Já a taxa de desemprego continuou estável em 3,6% para o mês de abril, a menor taxa desde fevereiro de 2020, e levemente acima das expectativas de 3,5%. O PMI composto para abril foi revisado a 56 pontos, ante 57,7 registrados em março. A expansão na manufatura (59,2 ante 58,8) foi contrabalanceada por um crescimento menor de serviços (55,6 ante 58). Ainda, apesar de as empresas terem reportado um crescimento de empregos, a falta de trabalhadores persiste e, como resultado, atrasos de trabalho cresceram a um ritmo acentuado.

A economia americana contraiu 1,4% – em fatores anuais – no primeiro trimestre de 2022, bem abaixo das expectativas do mercado de expansão de 1,1%, seguindo um crescimento de 6,9% no quarto trimestre de 2021. Enquanto as exportações caíram 5,9%, as importações aumentaram em 17,7%, ao passo em que o investimento privado doméstico decaiu significativamente (2,3% ante 36,7%). Além disso, os gastos do governo também registram queda ante o período anterior (-2,7% ante -2,6%), e, na contramão, o consumo (2,7%) e investimento fixo (7,3%) contribuíram positivamente ao PIB.

Por fim, a confiança do consumidor, mensurada pela Universidade de Michigan, registrou o menor patamar desde agosto de 2011, caindo a 59,1 em maio, ante 65,2 em abril, e inferior às expectativas (64). A pressão inflacionária continua a pesar negativamente para o consumidor, restringindo o consumo de bens duráveis, que caíram ao menor nível registrado desde 1978.

Por fim, a China enfrenta um surto de COVID-19 em diversas províncias, com cidades – como Shanghai – em protocolo de lockdown. Este fator tem impacto em magnitude global, visto que o método de combate ao vírus compromete a cadeia de suprimentos, causando atrasos e aumento nos preços de bens ao redor do globo, além de prejudicar a atividade econômica chinesa e consequentemente mundial, e já pode ser observado no registro do PMI de abril, que desabou para 36,2, ante 42 em março, indicando uma retração.

O país, no entanto, apresentou um crescimento ajustado de 1,3% em seu PIB para o primeiro trimestre do ano, ultrapassando as estimativas do mercado de 0,6%, muito motivado pelos estímulos fornecidos pelo governo chinês, que busca reduzir o impacto causado pela sua política de Covid Zero.


Mercado financeiro – Ibovespa fechou no negativo pela primeira vez no mês de abril em 2022 e Criptomoedas seguem em forte desvalorização

O índice Ibovespa fechou o mês de abril com uma desvalorização de aproximadamente 10%, o primeiro mês negativo do ano de 2022. Entre os motivos que explicam a queda, os lockdowns realizados na China provocaram temores de uma possível redução na demanda global por commodities, impactando as ações ligadas a esse setor no Brasil, que possui o maior peso na composição da bolsa brasileira. Adicionalmente, o aperto monetário provocado pelo FED, com a alta dos juros nos Estados Unidos, aumentou a aversão ao risco dos investidores, ocasionando uma retirada de investimentos dos mercados emergentes, como é o caso do Brasil. De acordo com a B3, os investidores internacionais retiraram R$ 7,67 bilhões no mês de abril da Bolsa.

Em linha, o Bitcoin também tem apresentado forte desvalorização, consolidando uma perda de quase 60% desde o ATH (all time high) em novembro de 2021, quando chegou próximo da marca de U$ 68 mil. A segunda maior criptomoeda em valor de mercado, Ethereum, também apresenta uma queda de, aproximadamente, 60% desde novembro de 2021. Entre os fatores que explicam este cenário, o principal deles é o aumento da taxa de juros americana em 50 bps, número já esperado pelo mercado, mas ainda assim, suficiente para muitos agentes migrarem seus investimentos para ativos menos arriscados.


Síntese mensal

A continuidade do conflito no Leste Europeu continua a afetar negativamente o balanço de riscos em nível global. Novas revisões nas projeções apontam para um menor crescimento para as principais economias mundiais, além de uma pressão inflacionária persistente, sinalizando que o atual cenário, de aperto monetário pelos principais bancos centrais, deverá ser mantido para os próximos períodos, através de altas de maior magnitude nas taxas de juros e encerramento de programas de compra de ativos.

No cenário nacional, os dados positivos apontam para uma melhora do ambiente econômico, com crescimento da atividade e indicadores sinalizando para um mercado de trabalho aquecido. No entanto, o atual cenário, de atividade aquecida para o curto prazo, contrasta com as projeções de desaceleração para o segundo semestre de 2022, com a pressão inflacionária e a alta taxa de juros pesando negativamente sobre as projeções, tendo em vista os impactos negativos dos efeitos da política monetária contracionista sobre a atividade, surtindo maiores impactos sobre a demanda a partir dos próximos meses.

Em síntese, o cenário é de maior cautela e de piora nas percepções de risco, com uma maior clareza dos impactos causados pelo conflito no leste europeu sobre a atividade econômica, sobretudo, das economias europeias, reduzindo as projeções de crescimento global para 2022 e 2023. Neste cenário, onde não há previsão de alívio para o quadro inflacionário no curto prazo, é esperado uma continuidade do aperto monetário por parte das principais autoridades monetárias, desestimulando ainda mais a atividade econômica, mas objetivando conter a escalada dos níveis de preços.


Autores: Luís Guilherme Uliana, Mateus Melo e Wiliam Midon Pedroso.

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Carta de Conjutura Macro – Março

Carta de Conjutura Macro – Março

Introdução

O mês de março foi marcado, principalmente, pelas consequências inflacionárias causadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, com destaque para as commodities energéticas. Concomitantemente, as economias continuam apresentando dificuldades em lidar com as pressões sobre os índices de preço advindas do descompasso das cadeias produtivas mundiais, fortemente impactadas pela pandemia.

No Brasil, dados econômicos apontam um baixo crescimento esperado para os próximos trimestres, com o Governo Federal adotando algumas medidas que visam estimular a atividade econômica do país.


Atividade econômica – Dados setoriais reforçam cenário de baixo crescimento, enquanto mercado de trabalho apresenta melhora na geração de empregos

Dados recentes da atividade econômica reforçam cenário de baixo crescimento para a economia no primeiro trimestre de 2022, com os principais indicadores econômicos de fevereiro e março sinalizando leve melhora na comparação com os dados relativos ao mês de janeiro.

O índice IBC-Br, que mede a atividade econômica mensal e serve como uma prévia do PIB, apresentou queda de 1% para o mês de janeiro deste ano. Apesar do início negativo, medidas recentes podem apresentar uma melhora no cenário econômico. Recentemente, o governo reduziu impostos sobre produtos industrializados (IPI), ampliou linhas de crédito consignado e liberou o saque extraordinário, de até mil reais por trabalhador, do FGTS.

As medidas de estímulo fiscal adotadas pelo governo federal durante o mês de março têm gerado estímulos à atividade econômica e devem continuar surtindo efeito sobre a economia nos próximos meses. Ao todo, estas medidas somam mais de R$ 100 bilhões, o que representa mais de 1% do PIB. Adicionalmente, com a melhora do ambiente pandêmico, e a consequente redução das medidas de isolamento, dados de alta frequência e da confiança dos agentes econômicos para o mês de março reiteram para uma leve recuperação da atividade.

A indústria continua a sofrer com gargalos na cadeia de suprimentos e preços de matérias primas inflacionados, refletindo na queda acumulada de 5,8% a.a na produção industrial para o primeiro trimestre de 2022, sendo os bens duráveis os mais afetados. Já os serviços mostram resiliência ao se manterem estáveis no início do ano, com destaque para o setor de transportes. Para os próximos meses, é esperado pelo mercado que o setor de serviços apresente viés altista, sobretudo com serviços prestados às famílias e transporte aéreo se beneficiando do forte arrefecimento da pandemia.

Para 2022 e 2023, as projeções são de leve crescimento para a economia. As medidas fiscais, a redução do superávit dos estados e municípios pelo aumento das despesas e o arrefecimento da pandemia devem fornecer estímulos à demanda agregada e impulsionar a atividade econômica.

Dados do CAGED apresentaram forte avanço no mês de fevereiro, com geração de 328 mil empregos no setor formal, com projeções do mercado para geração de 220 mil empregos. Já no setor informal, a PNAD estima a geração de, aproximadamente, 1,1 milhão de empregos. A taxa de desemprego, portanto, é de 11,2%, 0,6 p.p. inferior ao desemprego apresentado em fevereiro de 2020, período pré-pandemia. A tendência é que o desemprego continue a diminuir nos próximos meses, mas, para o segundo semestre do ano, os efeitos defasados do aumento na taxa de juros devem ser melhor incorporados, causando uma desaceleração na geração de empregos.


Inflação e Política Monetária – Cenário inflacionário segue desafiador, com novas leituras acima das expectativas

Ao longo do mês de março, os indicadores de inflação vieram novamente acima das expectativas e continuam indicando uma composição desfavorável, com os núcleos de inflação se mantendo em níveis elevados e as pressões inflacionárias ainda disseminadas.

O IPCA, principal indicador da inflação, teve alta de 1,62% no mês de março – superior aos 1,33% esperados e 0,61 p.p maior ante fevereiro. Essa é a maior variação para o índice em um mês de março desde 1994. As commodities energéticas continuam impactando o índice, sendo que o maior destaque para a alta foi do segmento de transportes, que variou 3,02% e foi responsável por 0,65 p.p. do índice. Em seguida, aparecem Alimentação e bebidas, variando 2,42% e impactando 0,51 p.p. A combinação entre os dois foi responsável por 72% do resultado do IPCA. As últimas leituras do índice e as perspectivas de risco no cenário global não perfilam de forma positiva, ao passo em que é muito provável que ao término do ano de 2022 a inflação acumule alta acima da meta de 3,50%, estabelecida pelo banco central, novamente. O acumulado anual do índice é de 11,30%.

As leituras para serviços e bens industriais duráveis desaceleraram, mas ainda não está claro se este novo cenário representa um viés claro quanto à mudança de tendência no mercado ou possui caráter transitório.

Adicionalmente, um fator que deve arrefecer os efeitos inflacionários no curto prazo é a apreciação do real perante ao dólar. O mercado de câmbio registrou entrada líquida de US$9,4 bilhões no ano até o dia 18 de março, o maior patamar para o período em 10 anos, muito motivado por uma maior demanda global por ativos de países emergentes, que se tornam mais atraentes, redirecionamento de investimento previamente russos para outros emergentes e movimento expressivo no aumento de preço de commodities. Em linhas gerais, os índices de preços não apresentaram uma sinalização clara de viés para os próximos períodos durante o mês de março.

Por fim, em sua ata pós-copom, o Banco Central afirmou que visa combater os impactos secundários do choque de oferta, advindos do conflito na Europa, e que o momento exige serenidade. De acordo com a sua avaliação, o encerramento do ciclo em 12,75% seria suficiente para a convergência da inflação no horizonte relevante. A próxima alta deve ser de 100 bps, acontecendo na reunião de maio, e, caso o cenário tenha uma piora significativa, pode se esperar um aumento adicional, de magnitude inferior, no mês de junho.

Adicionalmente, o Banco Central reconhece que não conseguirá cumprir a meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano de 2022 (3,5%). O Bacen, no momento, trabalha com um cenário base de 7,1% de inflação para o ano vigente. Entre os fatores que explicam o não cumprimento da meta, a principal delas é o conflito entre Rússia e Ucrânia, que intensificou as pressões inflacionárias sobre as commodities, principalmente as energéticas. Ademais, as cadeias de produção globais seguem em descompasso, ainda impactadas pela pandemia, gerando descasamentos entre oferta e demanda.


Política Fiscal – Melhora do cenário fiscal mediante aumento das projeções de arrecadação 

No cenário fiscal, houve uma leve melhora do ambiente projetado para 2022 durante o mês de março, movimento puxado por uma revisão nas projeções para o resultado primário do governo central. A melhora no quadro fiscal advém de uma expectativa de crescimento na arrecadação no curto prazo, que se sustenta pela manutenção dos preços das commodities em patamares elevados, e pelos índices de preço acima do esperado para o primeiro trimestre de 2022. A revisão altista nas expectativas de variação de preços impacta o cenário fiscal em duas frentes. Em primeiro lugar, uma inflação maior infla a base tributária, aumentando a arrecadação. Adicionalmente, um deflator do PIB mais elevado também contribui para reduzir a razão dívida/PIB.

Adicionalmente, uma expectativa de um câmbio mais apreciado também contribuiu para reduzir as projeções de dívida para o fim do ano de 2022, com a redução do valor em reais da dívida bruta externa do setor público. No mês de março, o dólar teve uma queda de 7,66% frente ao real – já no consolidado do primeiro trimestre de 2022, o dólar acumula uma desvalorização de 14,55%, a maior desde 2009.

Apesar das medidas de incentivos fiscais e aumento dos gastos públicos por parte do Governo Federal, o efeito da inflação e das commodities sobre a arrecadação de tributos no curto prazo deverá compensar de forma positiva o orçamento público, havendo uma possibilidade do governo consolidado registrar um novo superávit primário em 2022.

No ano de 2021, a carga tributária subiu para 33,9% do PIB, o maior nível de impostos pagos pelo contribuinte brasileiro desde 2010. De acordo com o Boletim de Estimativa da Carga Tributária Bruta do Governo Geral, este recorde é justificado pelo fim dos incentivos fiscais implementados na pandemia e durante a recuperação econômica de 2021. No âmbito federal, houve um aumento de 0,27 p.p do PIB na arrecadação do IOF. Já na parte estadual, ocorreu um crescimento de 0,59 p.p do PIB do ICMS. O aumento foi impulsionado principalmente pela alta dos preços dos combustíveis em 2021, no qual o ICMS é cobrado sobre o valor final.

Na composição da carga tributária, pode-se avaliar que os impostos que mais pesam ao contribuinte brasileiro são os que estão alocados na categoria de “bens e serviços”, que correspondem a 14,76% do total de 33,9%.


Setor Externo – Conflito na Ucrânia persiste e inflação acelera ao redor do globo

A guerra no Leste Europeu, envolvendo Rússia e Ucrânia, ganhou força nas últimas semanas, apesar da estagnação no início do mês de abril. A incapacidade das forças russas de invadir Kiev levou a uma concentração do exército do Kremlin na região separatista de Donbas. A continuidade do conflito, aliada às negociações sem avanço, demonstram que a guerra terá continuidade no futuro próximo, aumentando o risco com relação ao preço de commodities e estreitando ainda mais a diplomacia entre os países envolvidos no confronto.

O PMI composto da Zona do Euro, índice que mede o nível de atividade dos gerentes de compra, para o mês de março, veio levemente acima das expectativas do mercado, em 54,9 (54,5), número  inferior ao apresentado pelo mês anterior (55,5). A reabertura da economia europeia, em meio à redução em casos de Covid, mostrou ser importante para o resultado positivo. No entanto, muitos fatores advindos do conflito ucraniano ainda não foram incorporados no índice, demonstrando que este deve ser “testado” ainda nos próximos meses.

O fator reabertura pode ser observado ainda no desemprego do bloco econômico, que caiu levemente de 6,9% em janeiro para 6,8% em fevereiro, acima das projeções de 6,7%, com número total de 11,155 milhões de desempregados. De forma semelhante, o número não incorpora totalmente os choques relacionados à invasão russa, que podem afetar negativamente o índice nos próximos meses.

Já a inflação na Zona do Euro mostra sinais do impacto negativo causado pela guerra, com o índice anualizado acelerando a 7,5% para o mês de março, muito acima das projeções, que ficaram em torno de 6,6%. Alimentada pelo aumento nos preços de commodities energéticas – petróleo, gás natural e energia elétrica – o índice fica ainda mais distante da meta de 2% imposta pelo ECB (European Central Bank).

Ainda sobre o ECB, o banco central europeu decidiu por deixar a sua taxa de juros de curto prazo inalterada em 0% a.a., ao mesmo passo em que comunicou a sua decisão de encerrar a compra de títulos no terceiro trimestre de 2022. Ao passo em que o ECB terminará sua aquisição de ativos, é esperado que as taxas de juros comecem a subir, seguindo o caminho do BoE (Banco da Inglaterra) e do Fed. Além disso, a presidente do ECB, Christine Lagarde, reforçou a importância do conflito no leste europeu, as sanções aplicadas e medidas futuras como fatores determinante sobre o crescimento do bloco, citando que as políticas futuras do banco central dependerão de dados econômicos a serem recebidos e “avaliação em torno de suas perspectivas”.

Gráfico Descrição gerada automaticamente

Adjacente ao anúncio do ECB, as taxas de juros em títulos de maturidade de 10 anos continuam subindo desde o início de 2022, ao passo em que os agentes esperam por um aumento na taxa de juros.

Já nos EUA, o PMI composto, que inclui os setores industriais e de serviços, atingiu 58,5 no mês de março, acima das expectativas (57) e crescimento quando comparado ao mês de fevereiro (55,9). No entanto, o setor industrial sofreu com uma redução de 1,5 – queda de 58,6 a 57,1 -, mostrando que o setor ainda sofre com as restrições na cadeia de suprimentos.

O mercado de trabalho americano também se mostra aquecido, atingindo a menor taxa de desemprego desde o início da pandemia, de 3,6%. Apesar do ganho de empregos ter sido inferior ao esperado pelo mercado, ainda representa um bom primeiro trimestre para a economia americana.

Por outro lado, a inflação continua a se mostrar um desafio para o Fed. O índice de preços ao consumidor americano acelerou em março e teve alta de 1,2% ante fevereiro, de acordo com as expectativas. O índice anualizado é de 8,5%, maior número desde dezembro de 1981 e levemente acima das projeções (8,4%). Os destaques na alta do índice se deram pela alta em commodities energéticas, como o aumento de 18,3% na gasolina – que representou mais da metade do aumento mensal de todos os itens -, 1% em alimentação e 1,5% para a alimentação em casa.

A alta inflação, e a perspectiva negativa no balanço de riscos, impactou a percepção do Fed sobre o ciclo da alta de juros nos EUA, com membros do comitê apoiando uma alta de 50 bps – superior à alta de 25 bps da última reunião – e com objetivo de chegar em uma taxa neutra, ao menos, como forma de combate aos efeitos vistos no cenário econômico. O comitê também discutiu sobre o ajuste no balanço do Fed, com redução mensal de cerca de US$ 60 bi (Treasuries/T-bills) e US$ 35 bi (Hipotecas), sendo o valor, portanto, de US$ 95 bi por mês.

Gráfico, Histograma Descrição gerada automaticamente

O título americano de maturação em 10 anos mostra movimento semelhante ao europeu, ao passo em que, guiados pelas decisões e comunicações do Fed, os agentes econômicos precificam um aperto no ciclo de aumento da taxa de juros americana.

Por fim, a China continua passando por um surto de Covid-19 em algumas de suas províncias, com destaque para Shanghai. No início de abril foram registradas mais de 20 mil novas infecções, o maior número já registrado em território chinês desde o início da pandemia. Adicionalmente, mais de 25 milhões de pessoas se encontram em lockdown na cidade. O motivo da China estar atuando dessa maneira reflete a sua política de “Covid zero”, focada em conter totalmente a doença, através de testagem em massa e quarentenas. No momento, não há previsões sobre o fim destas restrições.

A forma em como o governo chinês responde a casos de coronavírus refletiu em PMIs do país, assim como no índice de inflação, que, na direção contrária do mundo, continua baixo, a 1,5% na variação anual – apesar de ter vindo acima das projeções de 1,2%.


Conclusão

A continuidade do conflito no Leste Europeu continua a afetar negativamente o balanço de riscos em nível global. Novas revisões sobre projeções apontam para um menor crescimento esperado para as principais economias mundiais, além  de uma pressão inflacionária persistente, sinalizando que os principais bancos centrais deverão apertar a política monetária, através de altas de maior magnitude nas taxas de juros e encerramento de programas de compra de ativos.

No cenário nacional, espera-se um crescimento inferior a 1% da atividade econômica em 2022, com fatores como a pressão inflacionária e a alta taxa de juros pesando negativamente sobre as projeções. De forma adjacente, por ser um ano eleitoral, o governo tenta implementar políticas públicas – como reajuste de salários e aumento de auxílios sociais -, colocando incertezas sobre o atual cenário fiscal, que, até o momento, se mostrou sólido.




Autores: Luís Guilherme Uliana, Mateus Melo e William Pedroso.

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Carta de Conjuntura Macro – Fevereiro

Carta de Conjuntura Macro – Fevereiro

O mês de fevereiro ficou marcado pelo início do conflito no Leste Europeu, com a invasão russa à Ucrânia, culminando numa piora do cenário macroeconômico global, com aumento das percepções de risco pelos agentes econômicos e uma maior volatilidade nos mercados.

Os impactos da guerra sobre a inflação devem ser a principal consequência econômica do conflito, fato que ocorre num cenário já de elevada pressão nos níveis de preço e de alta inércia inflacionária, tendo em vista os acentuados choques de oferta e descasamentos nas cadeias mundiais de insumo. Neste cenário, as projeções são de um aperto monetário mais intenso, com revisões baixistas para a atividade econômica, sobretudo na Europa. No Brasil, dados relativos à atividade econômica vieram acima do esperado, enquanto inflação continua persistente e com tendência altista.


Atividade Econômica – Resultados do 4T21 surpreendem positivamente, apesar do cenário incerto

O Produto Interno Bruto (PIB) para o 4º trimestre de 2021 avançou 0,5% na comparação com o trimestre anterior, acima das expectativas do mercado (0,1%), e 1,6% ante mesmo período em 2020.

No ano, o PIB avançou 4,6% em 2021, ante recuo de 3,9% em 2020, resultado próximo às expectativas do mercado no início do ano, de 4,5%. Com este resultado, o PIB quebra a sequência de dois trimestres consecutivos de recuo, retornando ao patamar positivo e deixando um carrego estatístico de 0,3% para 2022.

Pela Ótica da Produção, o destaque positivo se deu ao setor agropecuário, que registrou um crescimento de 5,8%, refletindo o bom desempenho de lavouras com peso relevante na produção agrícola, como a soja (11%), trigo (25,8%) e o arroz (5,2%).

Apesar da desaceleração, o setor de serviços ainda registrou alta de 0,5%, ante 1,2% registrado no período anterior, e segue refletindo os efeitos positivos do processo de normalização da mobilidade urbana, devido à redução das medidas restritivas. Os destaques positivos foram os Serviços de Informação e Comunicação, que obtiveram avanço de 3,4% no período.

Já o setor industrial apresentou o terceiro recuo consecutivo, de 1,2%. Com exceção do setor de Construção, que avançou 1,5%, todos os demais apresentaram queda na atividade.  Em dados mais recentes, a produção industrial de janeiro apresentou queda de 2,4%, demonstrando que a indústria ainda segue sofrendo as consequências da alta dos custos com energia elétrica e dos graves problemas na cadeia mundial de insumos, intensificados com a recente piora no abastecimento de semicondutores, impactando consequentemente, a produção de bens duráveis.

Pela Ótica da Despesa, o destaque foi o consumo das famílias, apresentando alta de 0,7% no trimestre e acumulando alta de 3,6% no ano de 2021. O crescimento observado reflete a melhora dos indicadores de mercado de trabalho e os efeitos positivos gerados pelos programas de transferência de renda por parte do governo, apesar das vendas do comércio varejista e do faturamento do setor de serviços perderem fôlego no período. Os gastos do governo também contribuíram positivamente, com avanço de 0,8% no trimestre.

A Formação Bruta de Capital Físico avançou 0,4% no período, e 3,4% na comparação com o 4T20. Os destaques são atribuídos a demanda por máquinas e equipamentos, que apresentou alta de 3,7% no trimestre e de 23,6% no consolidado do ano – resultado influenciado pelo crescimento das importações -, e a construção civil, com crescimento de 0,7%.  Além disso, a taxa de investimento em preços correntes cresceu 0,6 p.p. no quarto trimestre de 2021, quando comparado com o mesmo período do ano anterior, subindo de 18,4% para 19%. A taxa de poupança reduziu durante o mesmo período, de 12,1% para 11,3%, gerando uma poupança externa positiva.

Por fim, as exportações líquidas contribuíram de forma ligeiramente negativa para o resultado do PIB na comparação com o último trimestre de 2020, enquanto as exportações avançaram 3,3% no quarto trimestre, as importações tiveram alta de 3,7%.

No mercado de trabalho, a taxa de desemprego – medida pela PNAD – foi de 11,1% para o trimestre encerrado em dezembro, levemente abaixo das expectativas do mercado (11,2%). A redução no desemprego se deu devido ao crescimento dos empregos formais e informais. No entanto, a média real dos salários decresceu de forma mais intensa do que o crescimento de empregos, o que afeta o consumo das famílias e retrai a massa salarial real.

Adicionalmente, o indicador de confiança do consumidor, divulgado pela FGV, também obteve melhora durante o mês de fevereiro, subindo 3,8 pontos no mês, para 77,9, o maior nível desde agosto de 2021 (81,8). O destaque se deu pelo aumento da intenção de compras de bens duráveis, que estava em queda há cinco meses consecutivos.


Política Monetária – Redução do ritmo com previsão de ciclo mais longo

A inflação de fevereiro, medida pelo IPCA, apresentou alta mensal de 1,01%, acima do esperado pelo mercado (0,94%), uma aceleração relevante ante o mês de janeiro, onde o índice apresentou alta de 0,54%. A inflação acumulada em 12 meses fechou em alta de 10,54%.

Os destaques do índice se dão pela alta no segmento de Educação, que avançou 5,61% no mês devido aos reajustes anuais das mensalidades escolares, sendo responsável pelo avanço de 0,31 p.p. do índice. Ademais, Artigo de Residência (1,76%), Alimentos e Bebidas (1,28%) e Saúde e Cuidados Especiais (0,47%) também tiveram relevância sobre a alta.

Os combustíveis devem exercer pressão relevante sobre o índice em março, tendo em vista o reajuste no preço dos combustíveis nas distribuidoras promovido pela Petrobras, com elevação de 18,7% para a gasolina e 24,9% para o diesel.

Adicionalmente, outros fatores podem provocar novas revisões nas expectativas e no cenário inflacionário no curto prazo, como o cenário climático adverso e a manutenção dos preços das commodities em patamares elevados, impactados pelas preocupações com as possíveis restrições de oferta em torno da atual crise geopolítica. Em contraponto, a aprovação da PLP 11/20 deverá exercer um impacto baixista sobre o preço dos combustíveis e, consequentemente, sobre os níveis de preço.

Em linha com as expectativas do mercado, o Copom elevou a taxa Selic, em decisão unânime do comitê, em 100 pontos-base, para 11,75% a.a. na reunião de março. No comunicado que acompanhou a decisão, o Copom já adiantou que deve realizar uma alta de mesma magnitude na próxima reunião, com data para os dias 3 e 4 de maio. Na ata da primeira reunião de decisão de política monetária de 2022, no mês de fevereiro, o Copom demonstrou que está disposto a continuar o ciclo de aumento na taxa de juros, mas com ritmo mais lento. Entre os principais pontos citados, o comitê alertou sobre os riscos de incerteza da política fiscal e de preços de ativos e commodities, sendo os últimos amplificados com o recente conflito no leste europeu.

Complementarmente, o comitê registrou durante o mês que alguns indicadores mostraram evolução ligeiramente superior à esperada na virada do ano, com melhora no mercado de trabalho. No quadro atual, com a taxa de juros já em campo contracionista, a redução do ritmo em março permite o comitê discernir com maior precisão os reais efeitos do novo choque. Em síntese, os efeitos do conflito no Leste Europeu devem ser menos severos para os países da América Latina, mas o efeito adverso das commodities sobre os níveis de preço devem impactar a inflação doméstica, neste cenário, já partindo de um exercício de desinflação desafiador, é esperado um ciclo de aperto mais longo, como já precificado pelo mercado.


Política Fiscal e Cenário Político – Melhora do cenário fiscal com perspectiva de aumento da arrecadação para o ano 

No cenário fiscal, a arrecadação pública deve seguir superior à média pré-pandemia, como ocorrera no ano passado, estimulada, dentre outros fatores, pela normalização dos programas de redução e diferimento de impostos lançados para o combate da pandemia, pelo impacto positivo da inflação na base de arrecadação e, sobretudo, pelo boom das commodities.

Em paralelo, a alta das commodities tem elevado a pressão por políticas de controle de preços, como a PLP 11/20, já sancionada. O cenário, no entanto, permanece positivo, com algumas projeções de mercado não descartando a possibilidade de novo superávit para o setor público em 2022. Segundo estimativas do Banco BTG Pactual, a arrecadação do governo central com commodities em 2022 deve atingir patamar próximo a R$ 270 bilhões.


Projeção: BTG Pactual. Valores em R$ bilhões.


No ambiente político, o mês de fevereiro foi marcado pela volta das atividades legislativas e pela intensificação das movimentações visando o ano eleitoral. O ambiente político vislumbrado em meados de 2021, de instabilidade e forte escalada da desarmonia entre os poderes, perdeu espaço, mediante a concentração de esforços para o processo eleitoral que, de forma mais acentuada, começa-se a estruturar.

O mês de fevereiro foi marcado pela discussão de possíveis medidas legislativas para conter a pressão inflacionária sobre o preço dos combustíveis. Após a tramitação de algumas propostas no legislativo, foi sancionado a PLP 11/20, que prevê a isenção de Pis/Cofins para o diesel, gás e querosene de aviação até o final de 2022, com um impacto estimado de R$ 16,1 bilhões (0,17% do PIB) para o governo federal. O projeto também modificou a regra de cálculo do ICMS sobre o diesel até o final de 2022, que passa a considerar a média do preço dos últimos 5 anos. O impacto estimado desta medida é de R$ 9,0 bilhões (0,09% do PIB) no ano para os Estados. A aprovação da medida, associada à melhora recente nos preços internacionais do petróleo, retirou da pauta a possibilidade de novas iniciativas por parte do Planalto para controle dos níveis de preço dos combustíveis a curto prazo.


Setor Externo – Apreciação do real com aumento da demanda por ativos brasileiros e guerra no Leste Europeu

O forte fluxo de dólares para o país, decorrente em grande parte, do crescimento da demanda global por ativos de países emergentes exportadores de commodities, fez com que a entrada líquida de dólares nos dois primeiros meses do ano atingisse o maior patamar desde 2012, com um ingresso líquido de divisas de US$ 9,0 bilhões no período.

Com a redução dos estímulos no mercado americano e a consequente saída de investimentos no mercado acionário, os investimentos estrangeiros em ações no Brasil atingiram patamares elevados, cerca de R$ 70 bilhões até o dia 7 de março, segundo a B3. Neste cenário, o dólar obteve queda de 2,71% no mês, sendo cotado a R$5,15 no fechamento e já acumulando uma queda próxima a 8% no ano, adicionalmente, o índice Ibovespa fechou o mês em 113.142 pontos, uma alta mensal de 0,89%.

No âmbito geopolítico, o mês de fevereiro foi marcado pelo início do conflito entre Rússia e Ucrânia, gerando impactos sobre a atividade econômica, tendo em vista as várias sanções impostas por diversos países membros da OTAN, como forma de retaliação à invasão russa.

A primeira rodada de sanções foi direcionada a bancos e patrimônios de oligarcas, mas, com a intensificação do conflito, medidas mais firmes foram impostas, como a retirada da Rússia do Swift – um sistema de transferências que fornece informações a bancos do mundo inteiro – e congelamento de reservas internacionais. Adicionalmente, diversas empresas privadas suspenderam suas operações em território russo. 

O conflito, além de gerar perdas humanitárias, pressionou o preço de commodities da região. Produtos como o alumínio, gás natural, fertilizantes, milho, petróleo e trigo apresentaram alta volatilidade, e devem seguir apresentando tendências altistas no curto prazo. Neste cenário, é difícil mensurar os impactos causados pelo conflito na atividade doméstica, apesar da baixa participação da Rússia na corrente de comércio brasileira. Respondendo por apenas 0,7% das exportações do Brasil, e por 2,7% das importações no total acumulado dos últimos doze meses em fevereiro, a Rússia é a principal fornecedora de adubos e fertilizantes para o Brasil, com participação de cerca de 23% do total importado pelo país.

No cenário econômico, os destaques se dão por dados da atividade econômica, inflação, desemprego e política monetária na Europa e pelo desemprego e inflação nos EUA. Adicionalmente, na China, a implementação de novas medidas restritivas ganha força e resultados vêm acima das expectativas.

O desemprego para o mês de janeiro na Zona do Euro foi de 6,8%, abaixo do esperado pelo mercado (6,9%). O número representa uma queda ante dezembro (7,0%), com o afrouxamento de restrições melhorando a perspectiva no mercado de trabalho.

A inflação registrada para o período de janeiro de 2022 veio de acordo com as expectativas, representando um aumento de 0,3% ante dezembro e atingindo a máxima histórica do bloco, uma inflação anual de 5,1%. O ECB (European Central Bank) já havia optado por deixar a taxa de juros inalterada no início deste mês, no patamar de 0%, mas, devido à pressão inflacionária e os conflitos na Ucrânia, pode ser que o ECB siga o caminho do BoE (Bank of England) e adiante o hike sobre as taxas de juros.

Por fim, a atividade de manufatura da Zona do Euro em fevereiro subiu a 58,2, após ter registrado em janeiro o maior número dos últimos cinco meses. O alívio nos gargalos pelo lado da oferta resultou em melhores condições para a indústria, apesar de que a melhora não foi distribuída entre os membros do bloco e fábricas ainda enfrentam altas pressões inflacionárias.

Na China, na tentativa de conter o avanço de novos casos da variante Ômicron, o governo chinês decretou novo lockdown na cidade de Shenzhen e na província de Jilian, colocando 17,5 milhões de moradores em confinamento. Em paralelo, os dados da produção para os meses de janeiro e fevereiro vieram acima das projeções do mercado, com alta de 7,5% na comparação anual, contra alta esperada de 3,5%, conjuntamente, as vendas no varejo cresceram 6,7% durante o mesmo período, também acima dos 4,3% esperados pelo mercado. 

Já nos EUA, o PMI de manufatura para o mês de fevereiro registrou 57,3, número levemente abaixo do esperado (57,5), e alta comparado aos 55,5 anteriores. O resultado vem de acordo com a redução das restrições impostas à cadeia de suprimentos, estimulando a atividade industrial no país.

Também surpreendendo, o número de criação de trabalhos nos EUA para o mês de fevereiro foi de 678 mil, muito acima do esperado (400 mil) por economistas. O resultado se deu pelo aumento de empregos nos segmentos de hospitalidade, educação e saúde. Além disso, a taxa de desemprego ficou em 3,8%, número inferior aos 3,9% projetados pelo mercado e menor número após o início da pandemia. 

A inflação americana para o mês de fevereiro acelerou a 7,9% anualizados, de acordo com as expectativas do mercado. O número é o maior registrado nos últimos 40 anos, motivado pelas pressões inflacionárias causadas pelo preço de alimentos e commodities energéticas.

Por fim, pela primeira vez desde 2018, o Fed anunciou uma alta  na taxa de juros americana, de 0,25 p.p., estabelecendo-a em 0,50% ao ano. A decisão não foi unânime, com um diretor optando por uma alta de 50 bps. O chairman do Fed, Jerome Powell, comentou logo em seguida que as próximas 7 reuniões do comitê terão altas, e que a taxa de juros americana deve terminar o ano em patamar entre 1,75% e 2%. Ainda, Powell citou o balanço do Fed, com perspectiva de começar a reduzi-lo já a partir da próxima reunião.

A decisão vem em linha com o esperado pelo mercado, que vê positivamente a medida tomada pelo Fed em momento de pressão inflacionária e robustez no mercado de trabalho americano.

Em síntese, o quadro para a atividade econômica permanece desafiador para os próximos meses, principalmente por conta das pressões inflacionárias, advindas dos descompassos entre oferta e demanda, aumento dos custos produtivos, e pelas recentes incertezas das consequências do conflito no Leste Europeu. O cenário é de maior cautela e de piora nas percepções de risco, com tentativas por parte do mercado de mensuração dos eventuais impactos causados pelo conflito sobre a atividade econômica. Por fim, as projeções são de piora do quadro inflacionário no curto prazo e tendência de maior contracionismo monetário por parte das principais autoridades monetárias, desestimulando ainda mais a atividade econômica.

Autores: Mateus Melo, Luís Uliana e William Pedroso
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A situação econômica na Argentina

A situação econômica na Argentina

A pandemia, agravada em 2020, teve um forte impacto sobre as economias mundiais, sendo ainda maior para os países emergentes e principalmente para as economias cujas as quais já vinham fragilizadas. A nossa vizinha, Argentina, é o melhor exemplo desta conjuntura e serve como modelo para outros países sul-americanos, entre eles o Brasil, a não cometerem os mesmos erros econômicos e nem chegarem ao delicado momento vivenciado por lá.


A situação econômica atual argentina é extremamente frágil e percebida pela queda expressiva no PIB durante o último ano de aproximadamente de 10% e a alta taxa de pobreza a qual chegou a atingir mais de 40% da população segundo o Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censo da Argentina). A Argentina chegou a essa situação por diversas escolhas equivocadas em sua economia e má administração do próprio governo, neste artigo abordaremos três principais causas para o momento atual do país: a desvalorização da moeda, a alta inflação e o déficit fiscal. 


  1. A desvalorização da moeda e o sistema “bimonetário”


Após a saída do regime militar no final da década de 80, a Argentina saiu com graves sequelas econômicas, como a alta dívida externa, sendo boa parte contraída através do FMI, e a hiperinflação vivenciada durante o período, a qual chegou próxima de 200% em julho de 1989. Para conter a alta generalizada dos preços e estruturar a sua economia, a Argentina tomou diversas medidas cabíveis como o lançamento de um novo plano para a sua moeda, deixando de lado o austral e circulando novamente em sua economia o peso.


Além da nova moeda em circulação, o país decidiu em 1992 através da Lei de Conversibilidade, manter uma política cambial fixa e converter um peso para cada dólar. Ou seja, o governo realizava as trocas cambiais a fim de manter as reservas internacionais em um volume igual ou maior que a base monetária da moeda nacional, com isso mantinha a meta do peso equivalente a um dólar.


Diante deste sistema cambial, por muitos anos o peso argentino se manteve constante em relação ao dólar, o que favoreceu o controle da inflação durante o período e o aumento nas importações. Entretanto, a política cambial fixa trouxe desvantagens à economia argentina entre elas o aumento de empréstimos externos para manter a conversibilidade da moeda e o desequilíbrio na balança comercial, desfavorecendo as exportações dos principais produtos argentinos (trigo, soja, carne e lacticínios) e enfraquecendo a indústria nacional, pois mesmo com o PIB crescendo 6% entre 1991 e 1997, o desemprego aumentou de 6,05% para 13,7% no mesmo período.


O crescimento econômico nos anos 90 não foi o suficiente para o país balancear as suas dívidas entre 2000 e 2001 e com isso a Argentina sofreu uma de suas maiores crises financeiras após a moratória no pagamento de seu financiamento externo. Para reerguer a economia, o país passou a adotar novamente a política de câmbio livre, deixando de lado a política de um peso para um dólar. Mas devido à alta dívida externa, essa mudança levou a uma crise cambial ao desvalorizar em aproximadamente 40% sua moeda nacional em relação à moeda americana. No gráfico abaixo, conseguimos ver a desvalorização da moeda nacional em relação ao dólar até os dias de hoje.


Enquanto antes da Lei de Conversibilidade o peso valia um dólar, hoje o peso equivale a aproximadamente US$0,01, ou seja, uma queda no câmbio na ordem de 100 vezes. Mas o que fez essa desvalorização expressiva durante esse período?



Fonte: Exchanges Rates


        Após a crise no início do milênio, os argentinos acabaram perdendo a confiança na sua moeda devido às más escolhas do Banco Central Argentino em conter a inflação, o que fez os argentinos habituarem-se a comprar dólar para não perderem o poder de compra, o que transformou a economia argentina em um sistema bimonetária. Além disso, as constantes moratórias, o qual serão explicadas posteriormente, aumentaram o risco do país e dificultando ainda mais a entrada de recursos externos.


Ainda assim, a situação da Argentina é ainda mais difícil se analisarmos para o curto prazo. Após o agravamento da pandemia, as reservas cambiais tiveram uma grande queda chegando ao valor bruto de US$ 42,5 bilhões, muitos citam ainda que excluindo o depósito compulsório dos bancos, ouro e swap cambiais, o valor líquido fica próximo de US$ 3,5 bilhões. Para tentar reverter essa situação, o governo argentino aumentou as restrições à venda do dólar, limitando a compra de dólar para US$ 200,00 mensais para cada argentino, já que a hiperinflação é um dos maiores medos da população e leva os argentinos a recorrem à moeda americana frequentemente.


  1. A  inflação descontrolada na Argentina

A assombração dos argentinos com a inflação vem de longa data. O próprio objetivo da política fixa cambial comentada anteriormente, foi de conter a inflação e trazer a estabilidade da sua moeda, entretanto esse fantasma ainda assola os argentinos.


Após a crise cambial em 2001, a Argentina teve um salto em sua inflação, com esse índice próximo dos 35% ao ano e levou à iminente queda do presidente Fernando de la Rúa no poder. Com a fragilidade econômica argentina, o kirchnerismo entrou no poder a fim de reestruturar o país e levar uma melhor situação econômica para a população, o qual conseguiu ter um razoável crescimento econômico, com o PIB aumentando próximo de 6% ao ano de 2003 até 2015. Além disso, o governo de Cristina Kirchner foi marcado por diversas políticas sociais como o aumento da cobertura previdenciária e a implantação do programa  AUH (baseado no Bolsa Família), o que auxiliou a tirar muitos argentinos da linha da pobreza, redução de cerca de 34,1% em 2010.


Entretanto, mesmo com o crescimento do PIB do governo Kirchner, a dívida argentina teve um expressivo crescimento e a inflação também voltou a perseguir no final do segundo mandato de Cristina, sendo próximo dos 22% em 2014. Na imagem a seguir, conseguimos analisar a inflação argentina tendo como base de comparação o próprio Brasil. 


Fonte: INDEC e IBGE


A inflação presenciada durante a era Macri, entre 2015 a 2019, foi ainda maior, o que trouxe mais instabilidade para o país. Mas qual a principal causa deste fenômeno que assola os argentinos?


O principal responsável pela alta generalizada nos preços argentinos é a emissão cada vez maior de moeda na economia para financiar a dívida pública. Com a falta das reformas estruturais e uma política ainda assistencialista, foi necessário mais dinheiro em circulação para o financiamento interno e assim, o peso argentino perdeu seu valor. Como Milton Friedman sempre dizia, a inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário.


No período de 2015 ao final de 2019, a base monetária teve um aumento em mais de 300%, já no Brasil o aumento foi de 32%, o que mostra a distorção da quantidade de pesos em circulação. No gráfico abaixo, é possível perceber o aumento da base monetária argentina


Fonte: Banco Central da Argentina 


          Para agravar ainda mais a situação, a pandemia criou um choque entre demanda e oferta o que fez muitas economias se preocuparem com a inflação. No caso da Argentina, o aumento generalizado dos preços foi de 31%, relativamente menor que em 2019, o qual foi 44%, mas ainda continua sendo um grande problema.


A fim de evitar as altas neste ano, o país realizou intervenções na economia, como por exemplo a suspensão da exportação de carne durante o mês de Maio. Esta medida teve como objetivo abastecer o mercado interno e diminuir a inflação de 12 meses que se encontrava em 47%, entretanto essa atitude para o médio e longo prazo pode ser ainda pior ao desestimular a oferta de carne dos produtores. Essa intervenção constante dentro da economia argentina desestimula a economia interna, o que diminui também o crescimento econômico e a arrecadação da máquina pública para o pagamento das suas obrigações atuais.


  1. A Dívida Pública e o Default

           A dívida pública argentina é um dos fatores determinantes para a inflação descontrolada e a grave situação econômica. Historicamente, o país sofre com a alta dívida em relação ao seu PIB e como boa parte deste valor é proveniente de empréstimos no mercado externo, a Argentina possui uma grande dificuldade em aplicar a sua política monetária. O principal fator para isso acontecer é que ao emitir moeda para pagar suas obrigações locais, o peso se deprecia frente ao dólar e aumenta ainda mais a sua dívida externa.

           Os argentinos sofrem com esses ciclos frequentemente, sendo o primeiro deles o default ocorrido em 2001 pela Argentina ao FMI. Após o término da política cambial fixa, os argentinos adotaram a política de câmbio livre o que fez o peso se desvalorizar em 40% ao dólar e com essa forte queda, houve o aumento da sua dívida externa em aproximadamente 4 vezes. A dívida/PIB argentina chegou aos 147%, fazendo os investidores estrangeiros retirarem ainda mais dinheiro e enfraquecendo a economia.


              

Fonte:Banco Central da Argentina 


          Durante o kirchnerismo, o país conseguiu de uma certa forma controlar a sua dívida pública ao alcançar uma dívida em relação ao PIB abaixo de 40%, o que não vinha acontecendo há mais de 10 anos. Mas como o próprio presidente Alberto Fernández citou recentemente em entrevista com Pedro Rosemblat, “A Argentina é um alcoólatra recuperado”, o qual mesmo passando por um momento difícil na dívida pública, continua a se descontrolar após se estabilizar e contraindo ainda mais dívida.

            

Fonte: Banco Central da Argentina 


         Percebe-se nitidamente essa expressão durante o segundo mandato de Cristina Kirchner, onde o déficit público chegou a praticamente 20 bilhões de dólares ao ano. Com as contas públicas deficitárias e o aumento da dívida, o país deu o segundo calote em menos de 13 anos ao estender os prazos para o pagamento de sua dívida externa.


           Após o fim do mandato de Cristina Kirchner e com Macri no poder, existiam esperanças por muitos que a situação poderia melhorar, mas a situação foi ainda pior. Os déficits públicos continuaram e o país teve de recorrer ao FMI para uma ajuda financeira com o intuito de frear a desvalorização do peso em relação ao dólar e no final de seu mandato a dívida pública chegou a 90% do seu PIB.


            Na volta de Cristina Kirchner no poder, agora como vice presidente, o país já estava em uma situação muito extrema e somado a situação sanitária devido a pandemia, não houve outra atitude além de dar o terceiro calote nos fundos exteriores em menos de 20 anos, no que resultou em um estado comprometido totalmente em suas dívidas e com dificuldades para seguir caminhando com as próprias pernas.


           A Argentina chegou até esse ponto de uma economia tão fragilizada por diversos equívocos econômicos como uma política cambial fixa que fez o peso perder valor frente a outras moedas, impressão de mais moeda para financiar a dívida e a má administração das contas públicas ao apresentar déficits consecutivos. Com uma moeda desvalorizada, inflação descontrolada e a dívida pública a aumentar, a situação é muito delicada a ponto de não se ver um futuro próspero no curto e médio prazo.



Referências


Banco Central da Argentina
Disponível em: http://www.bcra.gov.ar/


Agência EFE, La deuda externa de Argentina bajó en 2020 pero aún sigue siendo un lastre

Disponível em: 

https://www.efe.com/efe/espana/economia/la-deuda-externa-de-argentina-bajo-en-2020-pero-aun-sigue-siendo-un-lastre/10003-4500850


Country Economic, Argentina Government budget deficit

Disponível em: https://countryeconomy.com/deficit/argentina


Brookings, Argentina in Default: Why 2014 Is Different from 2001

Disponível em: https://www.brookings.edu/blog/up-front/2014/08/05/argentina-in-default-why-2014-is-different-from-2001/


Governo Argentino, Presentación gráfica de la deuda

Disponível em: https://www.argentina.gob.ar/economia/finanzas/presentaciongraficadeudapublica


José M. Bulacio, El déficit fiscal en Argentina y sus consecuencias macroeconómicas

Disponível em: https://aaep.org.ar/anales/pdf_01/bulacio_ferullo.pdf


Ministerio Trabajo y Economía Social de la España, La inflácion es un problema de todos

Disponível em: https://www.mites.gob.es/ficheros/ministerio/mundo/revista_ais/175/6.pdf


Economipedia, La inflación en Argentina: una explicación monetaria

Disponível em: https://economipedia.com/argentina/la-inflacion-en-argentina-una-explicacion-monetaria.htm


Folha de São Paulo, Câmbio fixo eleva desemprego argentino
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1007200016.htm

El País, A crise perpétua da Argentina
Disponível em: 

https://brasil.elpais.com/economia/2021-03-01/a-crise-perpetua-da-argentina.html


Fernando Ulrich:
Por que a Argentina fracassou

O peso argentino está morrendo

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vFkmHknmqQ4


A Argentina vai quebrar. De novo.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=F1nlOuJZi0A&t=2s


BBC, A derrocada Argentina

Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49571729


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Carta de conjuntura Macro – junho

Carta de conjuntura Macro – junho

O mês de Junho foi marcado principalmente pelas reuniões do FOMC e do Copom sobre a decisão nas taxas de juros, decisões as quais estão sendo acompanhadas de perto em virtude das preocupações com a inflação. Já na última semana do mês, o mercado apresentou bastante volatilidade devido a reforma tributária junto com a possibilidade de tributação dos dividendos e a continuidade no inquérito da CPI da Covid no cenário político.


Além disso, comentaremos sobre os resultados divulgados sobre os empregos nos EUA, o mercado de criptomoedas e também o resultado da inflação no último mês puxado pela crise hídrica que pode encarecer ainda mais a conta de luz dos brasileiros.


Criptomoedas

Neste mês de Junho, o mercado de criptoativos voltou a se animar após meses em queda através da aprovação do Bitcoin como moeda oficial em El Salvador. No dia 24, o país oficializou através de uma nova lei, o uso do Bitcoin como moeda de troca do país junto atualmente com o dólar, sendo o primeiro país no mundo a tomar esta atitude. Isso acabou despertando os olhares de muitos investidores de criptomedas e fez o Bitcoin se valorizar em aproximadamente 10% depois da notícia, além de criar uma oportunidade ainda maior para utilização da moeda mundialmente.


Por trás desta atitude de El Salvador, existe um lado muito importante economicamente. Entre 15% a 20% do PIB de El Salvador é composto por remessas estrangeiras, logo com a oficialização do Bitcoin facilitará ainda mais a entrada de dinheiro para o país e assim aumentar a arrecadação do governo, além de abrir oportunidades para mineradores e empresas de criptoativos se instalarem. O incentivo será ainda maior já que a população irá receber US$ 30 ao utilizarem a carteira digital de criptomoedas oficial, “Chivo”.


Cenário Internacional

Nos Estados Unidos foram criadas 850 mil vagas de emprego no mês de junho, um aumento considerável em relação às 583 mil geradas em maio. Assim, o país chega ao recorde de mais de 8 milhões de vagas em aberto. Mesmo assim, a taxa de desemprego subiu de 5,8% para 5,9% nestes meses. O fechamento das escolas e creches, que aumenta o número (principalmente) de mulheres em casa, bem como os auxílios do governo Biden, e as altas recordes de ações que resultaram em um crescimento nas aposentadorias precoces, são os principais fatores para a falta da alocação de mão de obra nas vagas existentes. É previsto que este cenário se normalize até o final do ano, com a contínua vacinação da população, consequente reabertura das escolas e diminuição dos auxílios.

Os membros do FOMC se reuniram nos dias 15 e 16 de junho, e foi anunciada a manutenção das taxas de juros entre 0% e 0,25%, através de decisão unânime. Também foi mantida a decisão de compra de ativos em US$ 120 bilhões, sendo pelo menos US$ 80 bilhões por mês em Treasuries e US$ 40 bilhões por mês em MBS. Essas decisões buscam dar suporte ao cenário americano na pandemia, enquanto não há maiores progressos em direção à melhoria da taxa de desemprego e estabilidade de preços. 

Apesar disso, ficou clara a preparação para a redução gradual de compra de ativos,  já que a alta liquidez do mercado imobiliário nos Estados Unidos está gerando pressão por valorização, e isso faz com que seja necessário ajustar o volume e a composição dos ativos comprados, principalmente no caso das MBS. Em relação ao futuro, o FED espera que as taxas de juros voltem a aumentar no cenário pós pandemia, a partir de 2023. Além disso, também é esperado que a inflação fique acima de 2% por um período no médio prazo, para que se enquadre na meta de 2% no longo prazo.

No início do mês o mundo foi surpreendido pela decisão inédita do G7 a respeito da criação de uma alíquota tributária mínima global. O objetivo com a mudança, de acordo com o anúncio, é a nivelação da carga tributária ao redor do globo, sendo a alíquota pretendida de pelo menos 15%, e aplicável às multinacionais. O G7 acredita que a receita gerada com o aumento, possibilitará investimentos governamentais em melhoria da qualidade de vida da população nos locais com menor carga tributária. 

Por outro lado, uma das principais formas de atração de investidores por países menores e economias emergentes é através da concorrência tributária. O aumento poderia significar evasão de grandes empresas, como acontece no Brasil, diminuindo os empregos gerados pelas multinacionais e o acesso da população a produtos e tecnologia importada. Economistas acreditam que a medida beneficiará majoritariamente países consolidados, pois o aumento da receita proveniente de impostos depende de posturas do governo para se transformar em melhorias para a população, enquanto que o ponto negativo de perda de investimento externo é certo.

Coronavírus


O ritmo de vacinação vem aumentando rapidamente ao redor do mundo, o que vem facilitando a diminuição no número de casos e uma abertura econômica principalmente nos países mais desenvolvidos. 


Os Estados Unidos iniciaram um forte início de vacinação entre Março e Abril, enquanto os países da União Europeia tiveram um aumento na taxa de vacinação só recentemente. Entre as principais nações desenvolvidas, as que tiveram maior destaque em relação à vacinação até agora foram o Reino Unido, Portugal e a Alemanha. 

Fonte: Our World in Data.


A Europa e os Estados Unidos alcançaram o menor patamar nas últimas 10 semanas no registro de novos casos e mortes decorrentes de coronavírus, devido à forte aceleração na aplicação de vacinas. Por causa dessas quedas, houve um afrouxamento nas políticas de isolamento o que possibilitou a volta de festas e eventos esportivos, sendo um dos principais a Eurocopa.


Entretanto, na última semana, a variante indiana delta vem preocupando muitos países com a possibilidade de uma terceira onda. O Reino Unido, por exemplo, viu o número de casos voltar a aumentar fortemente, quatro vezes no último mês aproximadamente, além de outros países como Portugal, o qual teve impor restrições a turistas ingleses para diminuir o número de novos casos. Com as finais e semifinais da Eurocopa em Wembley e a ascensão da COVID-19 no Reino Unido através da nova variante, a pressão sobre uma possível volta para o fechamento econômico ficou ainda maior.


Já no Brasil, após uma forte segunda onda entre fevereiro e março, o ritmo de vacinação no país surpreendeu muitas projeções feitas inicialmente. Como comentado na carta de maio, o aumento no número de doses em estoques poderia resultar em uma aceleração na vacinação no próximo mês, o que realmente acabou acontecendo. O país conseguiu aplicar 1 milhão de doses diárias em 22 ocasiões entre junho e julho. Assim, o país chegou a marca de 13% da população imunizada totalmente e 38% com uma dose pelo menos. 


Os principais motivos para esse ritmo, além do aumento no número de doses, foi a melhor distribuição do governo federal aos estados, diminuindo os estoques de doses paradas, e a antecipação de vacinação de diversas faixas etárias.


Cenário Nacional

A forte aceleração da vacinação no Brasil, trouxe perspectivas positivas para a retomada econômica, mas as irregularidades na compra da vacina Covaxin por parte do governo Bolsonaro, trouxe novamente instabilidade para o país. A CPI da Covid já vinha analisando irregularidades na gestão do governo como a falta de oxigênio em Manaus e nas últimas semanas a investigação foi mais a fundo ao analisar um suposto superfaturamento na compra das doses no valor de US $15,00, quatro vezes maior que a vacina da  AstraZeneca.


Diante disso, a CPI vem buscando esclarecimentos ao Ministério da Saúde para analisar as negociações feitas pela compra da Covaxin e verificar se houve alguma fraude. Por causa disso, a Procuradoria-Geral da República (PGR) abriu inquérito para saber se o presidente Bolsonaro cometeu prevaricação, ou seja, negligenciou o suposto superfaturamento das doses indianas.


Reforma Tributária


No dia 26 de junho de 2021, o Ministério da Economia enviou ao Congresso Nacional a proposta contendo a Segunda Fase da Reforma Tributária, que diz respeito às mudanças no sistema de Imposto de Renda para Pessoas Físicas, Jurídicas e Investimentos Financeiros. Vale a pena relembrar que a Primeira Fase da reforma já foi apresentada no ano de 2020 e continha a proposta de unificação do PIS/Pasep e Cofins, assim como, a criação da Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços, chamada de CBS.


A Segunda Fase propõe mudanças em quatro frentes tributárias. A primeira consiste na reforma do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF), na qual o governo se compromete a atualizar a tabela de isenção do imposto. A população isenta do IRPF atualmente concentra-se na faixa de ganhos de até R$1.903,98 e consiste em um total de 10,7 milhões de pessoas. Com a proposta, a faixa de isenção subiria para ganhos de até R$2.500,00 contemplando cerca de 16,3 milhões de pessoas. O valor teto da tabela, para aqueles cuja a alíquota é de 27,5%, também será alterado passando de rendimentos acima de R$4.664,68 para rendimentos acima de R$5.300,01, como pode ser visto abaixo.


Fonte: Ministério da Economia.


Em relação ao desconto simplificado, mecanismo utilizado para facilitar o preenchimento da declaração de imposto de renda, propõe-se que fique restrito aos indivíduos que recebem até R$40 mil por ano. Outro ponto da proposta dentro do IRPF é a atualização do valor dos imóveis, que atualmente ocorre da seguinte forma: o imóvel é declarado em seu valor original, e ao se efetuar a venda do mesmo, o proprietário paga entre 15% e 22,5% sobre o ganho de capital. Na proposta de reforma, será permitido atualizar o valor patrimonial do imóvel na declaração de IR, sendo assim, incidirá uma alíquota de apenas 5% sobre a diferença do valor original do imóvel e o valor atual de mercado. A partir disso, as vendas adiante usarão como valor base do imóvel aquele que foi atualizado pelo proprietário anterior. A alíquota para envio de remessas de dinheiro de indivíduos aos paraísos fiscais passará a ser de 30%.


Entretanto, os pontos mais polêmicos da proposta de reforma estão relacionados ao IRPJ, são eles: a taxação de dividendos e a eliminação dos Juros sobre Capital Próprio (JCP), que afetam tanto as empresas como os indivíduos. No primeiro caso, a equipe econômica do governo pretende taxar os dividendos, atualmente isentos de IR, em 20% diretamente na fonte sem isenção entre os tipos de investidores. A proposta não se estenderá às micro e pequenas empresas com distribuição de proventos mensais de até R$20 mil. Remessas enviadas ao exterior também entrarão nesse quesito.


Vale ressaltar que a taxação de dividendos desestimula as empresas a repassarem os lucros aos acionistas, favorecendo a sua retenção e reinvestimento. Fator que pode desfavorecer empresas de baixo crescimento, como as do setor elétrico, e favorecer empresas de crescimento rápido e que não possuem distribuição de proventos, que também serão beneficiados pela redução do IRPJ, como será descrito adiante. A proposta também prevê a extinção dos JCP, instrumento estritamente brasileiro que possibilita às empresas a dedução dessa distribuição aos acionistas como despesa e, consequentemente, acaba por reduzir o lucro tributável, possibilitando a diminuição da alíquota efetiva de tributação de 34% para até 22% em alguns casos, o que não ocorre com os dividendos que são pagos com base no Lucro Líquido e não entram como despesas.


A segunda frente da proposta consiste na reforma do IRPJ, na qual ocorrerá uma redução progressiva na alíquota que atualmente se encontra em 15%, passando para 12,5% em 2022 e para 10% a partir de 2023. Além disso, o adicional de mais 10% para as grandes empresas permanecerá. Para pagamentos ou gratificações em ações destinadas a dirigentes e sócios também haverão mudanças, esses valores não poderão ser deduzidos como despesas operacionais.


Já a terceira frente de mudanças diz respeito ao IR de investimentos. Será extinto o escalonamento com base no prazo das aplicações em fundos de investimentos de Renda Fixa, que atualmente é de 22,5% para aplicações de até 180 dias e 15% para aplicações com prazo acima de 2 anos, passando a ser unificada em 15%. Os ativos de renda fixa como o Tesouro Direto e o CDB passarão a ter alíquota fixa em 15%, assim como, fundos multimercados.


Será extinto o “come-cotas” do mês de maio, sendo cobrado de forma integral no mês de novembro. O “come-cotas” é um imposto de renda que incide sobre os fundos, em especial de renda fixa, recolhidos de forma semestral (maio e novembro) com base nos rendimentos, nos fundos de curto prazo a alíquota é de 20% e nos de longo prazo é de 15%. Para fundos de ações e clubes de investimentos o “come-cotas” será mantido como está. Propõe-se uma unificação em 15% para todas as alíquotas dos diversos tipos de investimentos, no modelo atual a alíquota de 20% incide sobre Day Trade e FIIs e a alíquota de 15% incide sobre ações. Em relação aos Fundos de Investimento Imobiliário incidirá uma alíquota de 15% sobre os proventos pagos mensalmente a partir de 2022, entretanto, os impostos sobre lucros com as vendas das cotas cairá de 20% para 15%. A proposta também abrange investimentos no exterior, onde será extinta a isenção para as vendas de ações no valor de até R$35 mil.


A proposta da Segunda Fase da reforma não agradou a população em geral e nem o Congresso Nacional, segundo o próprio relator, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), há estudos para tentar tornar progressiva a taxa de distribuição de lucros e dividendos das empresas, como uma tabela por faixas nos moldes do IRPF. Afirmou também, que ainda há na reforma “gordurinhas” a serem queimadas. Segundo Luiz Gustavo Bichara, advogado tributarista em Bichara Advogados, com a aprovação do texto original da reforma os rentistas serão tributados em 15%, os assalariados em 27,5% e os empreendedores em cerca de 49%, no pior cenário o imposto incidente sobre as empresas seria dividido da seguinte forma: 20% de IRPJ + 9% de CSLL + 20% sobre dividendos. Vale ressaltar o entendimento do STF, que uma tributação de 50% caracteriza confisco, o que é estritamente proibido pela Constituição brasileira.


Nesse quesito cabe um adendo, o cenário no qual a tributação total poderia alcançar 49% ocorreria caso as empresas viessem a distribuir 100% dos lucros em forma de dividendos. Como a maioria das empresas não possui essa política, o Valor Econômico fez simulações (demonstradas abaixo) na qual considera uma taxa de pagamento de dividendos de 25%. Sendo assim, em 2022 a carga tributária total alcançaria ~35% e em 2023 cerca de ~33%. Ficando abaixo do que se pratica atualmente nos Estados Unidos, onde a alíquota total para empresas é de 41%.



Fonte: Valor Econômico


Com a aprovação da reforma, o Ministério da Economia estima que haverá um aumento de arrecadação em R$32,2 Bi em 2022, R$55,04 Bi em 2023 e R$58,2 Bi em 2024. Por outro lado, há estimativas de perdas de receitas de R$32,02 Bi em 2022, de R$54,71 Bi em 2023 e R$57,61 Bi em 2024 devido aos ajustes nas alíquotas do IR.


Crise hídrica e pressão inflacionária 

A crise hídrica é um assunto que vem ganhando espaço no cenário nacional, alguns dos principais reservatórios para a produção energética do país, localizados no Centro-Oeste e no Sudeste, estão nos menores níveis em 22 anos.


Marcelo Seluchi, meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica sobre esse recorde de escassez. Ele afirma que o nível de chuvas vem diminuindo ano após ano de forma generalizada no Brasil, e que outro grande problema que contribui para o baixo nível nos reservatórios é a falta de chuva, especificamente nas bacias dos rios, diminuindo a evasão dos mesmos e por consequência o nível dos reservatórios.


Com o baixo nível dos reservatórios, faz-se necessário a busca por produção de energia via outras fontes, dada a dependência da matriz energética brasileira para com as hidrelétricas. Nesse sentido, no curto prazo, é muito usada as usinas termelétricas para suprir a demanda de energia no país. 


Porém, o Ministério de Minas e Energia estima que, este ano, o acionamento de termelétricas resultará em um custo de R$ 9 bilhões ao consumidor, que deverá ser repassado gradativamente aos consumidores ao longo de 2021 e 2022. 


Assim, com a diminuição dos reservatórios das usinas hidrelétricas, e dada a forte dependência dessa fonte na matriz energética, há fortes pressões inflacionárias dado os aumentos de custo para a produção de energia, com a grande maioria dos locais com a bandeira vermelha acionada e reajustes de preço que chegam na ordem dos 100%.


Mudanças no comportamento do Bacen.

Como já sinalizado, o Copom decidiu por unanimidade, elevar a taxa de juros para 4,25% a.a, um aumento de 0,75 p.p. Essa é a terceira alta consecutiva da taxa de juros, retornando ao patamar pré-pandemia. 


O cenário de alta dos juros visa ancorar as expectativas dos agentes econômicos com relação à inflação de 2022, que dá sinais de piora. Os preços internacionais das commodities, o câmbio desvalorizado, a escassez de insumos na cadeia produtiva e o aumento do preço da energia, têm pressionado a inflação.


No acumulado de 12 meses, o IPCA (8,06%) já superou o teto da meta estipulado pelo governo, de 5,25%. Apesar dos dados recentes, o BC manteve o aumento de 0,75 p.p, mas com ajustes em sua comunicação. A mudança de tom do Banco Central veio com a retirada da “normalização parcial da taxa de juros” e indica um movimento mais rápido à taxa neutra, visando cumprir a meta de inflação de 2022: “Neste momento, o cenário básico do Copom indica ser apropriada a normalização da taxa de juros para patamar considerado neutro. Esse ajuste é necessário para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação.”


Em nota, o Copom afirmou que a persistência inflacionária e dados de atividade melhores do que o esperado, além de uma lenta normalização da oferta e aumento da conta de luz, devem pressionar inflação no curto prazo: “A persistência da pressão inflacionária revela-se maior que o esperado, sobretudo entre os bens industriais. Adicionalmente, a lentidão da normalização nas condições de oferta, a resiliência da demanda e implicações da deterioração do cenário hídrico sobre as tarifas de energia elétrica contribuem para manter a inflação elevada no curto prazo, a despeito da recente apreciação do Real.”


Além disso, o Copom ressalta que em seu cenário básico para a inflação permanecem fatores de risco em ambas as direções. De um lado, a recente valorização cambial pode diminuir a pressão sobre a inflação. Por outro, o prolongamento de estímulos fiscais que melhorem a atividade, mas ao mesmo tempo, aumentam o risco fiscal, podem ser fatores que elevem a inflação no curto e médio prazo. 


Nessa perspectiva, em busca de não perder o controle sobre os preços no médio e longo prazo e a sua credibilidade, que tornaria a política monetária menos efetiva, o Banco Central decidiu elevar a taxa de juros básica da economia para 4,25% a.a, e já indicou implicitamente um novo aumento de magnitude semelhante no próximo encontro. 


Assim, o cenário básico do Copom prevê uma inflação em torno de 5,8% para 2021 e 3,5% para 2022. Esse cenário supõe uma trajetória de juros que se eleva para 6,25% a.a. neste ano e para 6,50% a.a. em 2022.

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Carta de conjuntura Macro – maio

Carta de conjuntura Macro – maio

Criptomoedas

A volatilidade, sempre comum diante das criptomoedas, foi ainda mais forte durante este mês de maio. A moeda mais comercializada, o bitcoin, teve uma rentabilidade negativa de aproximadamente 50% no período, sendo um dos piores meses desde o seu surgimento, e influenciou a queda de outros ativos digitais como ETFs (HASH11), Etherium e outras criptomoedas.

O primeiro motivo para a volatilidade neste mês veio após um tweet de Elon Musk, surpreendendo o mercado ao suspender a compra de seus veículos por meio do Bitcoin. Segundo o CEO da Tesla, essa decisão foi tomada pela preocupação com o uso crescente de combustíveis fósseis para mineração de bitcoins, aumentando as emissões de gás carbônico na atmosfera. Além disso, Musk citou “A criptomoeda é uma boa ideia em muitos níveis e acreditamos que ela tem um futuro promissor, mas isso não pode ter um grande custo para o meio ambiente” e comentou também que repensaria essa decisão caso a mineração fizesse a transição para uma energia mais sustentável.

Já a segunda causa para a queda dos cripto ativos veio da repressão do governo chinês na mineração e comercialização do Bitcoin. A China vem buscando formas de limitar a circulação da moeda há um bom tempo, por exemplo em 2017 baniu ofertas iniciais de criptomoedas com o objetivo de proteger investidores e coibir riscos financeiros. Já em Maio deste ano, o governo chinês proibiu instituições e companhias financeiras de prover serviços de criptomoedas, como troca e vendas, além de pagamentos por meio destas moedas.

A China busca criar a sua própria moeda digital, o DCEP, sendo emitido pelo Banco do Povo da China (PBoC), o qual pode ser um dos fatores para a restrição das criptos dentro do país. Outros países também buscam criar sua própria moeda digital, inclusive o Brasil onde o Bacen já estuda a possibilidade para criação deste novo meio de pagamento.

Inflação Americana

A inflação estadunidense vem demonstrando aumentos consideráveis desde o início da pandemia de Covid-19, tendo disparado no mês de abril de 2021. O Consumer Price Index (CPI) que consiste de uma cesta de produtos da economia americana, parecido com o IPCA utilizado no Brasil, alcançou o maior patamar desde 2008 para o acumulado dos últimos 12 meses, cerca de 4,15%. Já a variação mensal do mesmo índice totalizou 0,8%, a maior elevação desde 2009, enquanto o consenso de mercado era 0,2%.

CPI 12-month percent change, Apr 2021

Fonte: U.S. Bureau of Labor Statistics; Elaboração própria.

CPI for all urban consumers: all items in U.S. city average

Fonte: U.S. Bureau of Labor Statistics; Elaboração própria

Ao analisar o Core CPI, índice sem o impacto dos preços de energia e alimentação, é possível observar um aumento de 2,96% no acumulado dos últimos 12 meses, maior patamar desde 2006, já na variação mês a mês do índice foi de 0,91%, maior patamar encontrado desde setembro de 1981. Esses dados expressam uma variação maior na perda de valor do dinheiro (Dólar), podendo ser uma consequência direta de fatores estruturais (ESG e aumento dos preços de energia, desglobalização e protecionismo) e conjunturais (pandemia, liquidez, déficit fiscal, choque de oferta das commodities) do cenário atual da economia americana e global, assim como, um reflexo das rodadas de QE.

Core CPI 12-month percent change, Apr 2021

Fonte: U.S. Bureau of Labor Statistics; Elaboração própria.

Como as medidas tomadas em 2020 de elevação de liquidez monetária feitas pelo FED e pelo Tesouro acabaram chegando à economia real e não ficaram represadas nos balanços dos bancos como ocorreu na crise financeira de 2008 é possível perceber o enorme aumento da Base Monetária que alcançou US$5.4 Trilhões no mês de fevereiro de 2021, uma elevação de 57,7% em relação aos últimos 12 meses.

Monetary Base

Fonte: Board of Governors of the Federal Reserve System (US); Elaboração própria.

Já em relação ao agregado monetário M2 que demonstra o total de dinheiro que está circulando na economia, chegou ao valor de US$20 Trilhões no final de 2020. Já em relação ao déficit do Tesouro, vale citar a acentuada elevação nos últimos anos, que saiu de -US$215 Bi no começo de 2018 para -US$864 Bi em junho de 2020 e -US$659 Bi em março de 2021. Fatores que demonstram a grande preocupação com a inflação americana que pode se acentuar ainda mais com a continuação dos projetos de estímulos do governo Biden.

M2 Growth (US$ Bi)

Fonte:  Board of Governors of the Federal Reserve System (US); Elaboração própria.

Fiscal Deficit (Treasury)

Fonte: U.S. Department of the Treasury (Fiscal Service); Elaboração própria.

Desemprego – dificuldade de contratação de mão de obra por parte das empresas

As expectativas do mercado em relação a criação de empregos no mês de abril estava acima de 1 milhão de contratações. Entretanto, o relatório de criação de empregos, payroll report, demonstrou a criação de apenas 266 mil. Já o consenso de mercado em relação à taxa de desemprego era de 5,8%, porém, o que se apresentou no mês foi um aumento da taxa de desemprego, alcançando cerca de 6,1%.

Job Creation

Fonte: U.S. Bureau of Labor Statistics; Elaboração própria.

Outro índice que reflete a situação do mercado de trabalho é o civilian labor force level, ou seja, a quantidade de pessoas que estão no mercado de trabalho (trabalhando ou buscando por emprego). No início de 2020 o valor era de 165 Mi de pessoas e no mês de abril de 2021 o valor é de 160,9 Mi de pessoas.

Civilian Labor Force (Millions)

Fonte: U.S. Bureau of Labor Statistics; Elaboração própria.

Porém, esse índice não reflete as pessoas que possuem condições de trabalhar, mas que não estão procurando emprego. Esse fato pode ser observado pela expressiva queda na taxa de participação da força de trabalho no início da pandemia e que até o momento não demonstrou grande recuperação. Esse índice está nos mesmos patamares de 1976. A consequência disso pode ser vista na economia real, onde está havendo muita dificuldade de contratação por parte das empresas, no estado da Flórida o McDonald ‘s está  oferecendo US$50 para que pessoas compareçam às entrevistas de emprego. Muitos economistas vêm atribuindo esse paradoxo ao programa de renda básica de Joe Biden, o que desestimula as pessoas a trabalharem, segundo eles.

Labor Force Participation Rate (%)

Fonte: U.S. Bureau of Labor Statistics; Elaboração própria.

No gráfico abaixo é possível perceber o aumento acentuado da renda dos trabalhadores no mês de abril de 2020 com o primeiro auxílio, assim como em março de 2021 com mais um auxílio do governo.

Personal Income of Workers (US$ Bi)

Fonte: U.S. Bureau of Economics Analysis; Elaboração Própria.

Aumento no preço dos imóveis

Os preços das moradias norte-americanas não expressavam um aumento tão acentuado desde o final de 2005. O índice da S&P de valorização das propriedades apresentou uma elevação de 13,2% em março deste ano se comparado a 2020. 

Em 20 cidades do país os preços das moradias ultrapassaram 13,3% de aumento, o maior patamar alcançado desde dezembro de 2013. Na cidade de Kingston no estado de Nova York, a elevação alcançou 36% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso se deve a maior procura por casas com taxas de hipoteca menores, assim como, as rodadas de QE e massivas compras de mortgage-backed securities pelo governo. 

Fonte: S&P Dow Jones Indices; Elaboração própria.

Quantitative Easing

Outro tópico bastante discutido devido ao aumento da inflação americana no mês de maio é a possível redução do Quantitative Easing do governo americano. O vice-presidente do FED, Richard Clarida, comentou que pode haver  algum momento nas próximas reuniões em que se discuta a diminuição na compra de ativos, porém ressaltou que dependerá dos próximos dados divulgados, o qual buscam mais progresso substancial no emprego e na estabilidade de preços. Já o presidente distrital do FED na Filadélfia, Patrick Harker, posicionou mais fortemente em relação a esta discussão ao defender que é necessário a redução do Quantitative Easing “antes cedo do que tarde” e citou como exemplo, a escalada de custos no mercado imobiliário residencial. 

A inflação não só preocupa nos Estados Unidos, como também em outros países da Europa. No último mês, o CPI (índice de preço ao consumidor) alemão subiu 0,5%, antes de uma previsão de 0,3%, sendo acima das expectativas o que gerou um sinal de alerta para muitos. Com isso, aumenta a pressão do Banco Central Europeu para discutir uma redução do Quantitative Easing, porém alguns membros do BCE ainda enxergam um aumento no atual momento como prematuro

Índia 

Após o Brasil ser o epicentro do COVID-19 no mundo, a Índia tomou este posto no final de abril ao ver o crescimento no número de casos, chegando a preocupante marca de 400 mil novos casos diários. Em maio, o país teve seu auge no número de mortes ao chegar na marca de 4 mil mortes diárias devido a densidade populacional, a lotação dos hospitais e a falta de médicos na linha de frente. Além disso, este número pode ser ainda maior por causa da grande quantidade de subnotificações por muitos morrerem sem um laudo médico ao serem dispensados dos hospitais.

A Índia, atualmente, é um dos maiores fornecedores de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) junto com a China, sendo que os dois países correspondem a dois terços do abastecimento mundial. Com o agravamento indiano na pandemia durante os últimos dois meses, houve uma escassez ainda maior da matéria prima para a produção de vacinas no Brasil, dificultando ainda mais a vacinação no país.

Pandemia no Brasil

Maio se tornou o terceiro mês mais letal desde o início da pandemia no Brasil, foram registradas 59.010 mortes pelo novo coronavírus neste mês. Mesmo que a situação no Brasil continue lamentável, observa-se uma tendência de baixa, dado que na comparação houve uma queda de 28% em número de mortes em relação ao mês anterior e uma queda também na quantidade de casos, como podemos ver no gráfico abaixo:

Casos de covid – média móvel de 7 dias

Vemos que o Brasil ainda se recupera do seu pior momento da pandemia, que foi em meados de abril, onde chegou a mais de 3 mil mortes em apenas um único dia. Desde o pior momento, vários estados impuseram lockdown e restrições de circulação, assim como os próprios municípios. E como os dados acima mostram, as medidas restritivas fizeram efeito, conseguindo aliviar o número de casos e principalmente a ocupação de leitos de UTI.

Porém, o que chamou atenção no mês de maio foi a desaceleração do ritmo de vacinação. Depois de administrar em média 815 mil doses de vacina por dia no mês de abril, maio foi marcado por uma diminuição nesse número, chegando a apenas 678 mil doses da vacina, uma diminuição de 16,8% na aplicação de doses diárias.

Essa queda ocorreu exclusivamente na aplicação das segundas doses, que passou de 10,6 milhões em abril para 6,6 milhões em maio — mês em que o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) paralisaram suas linhas de produção temporariamente por falta de insumos, respectivamente, das vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneca.

Até o momento, o Brasil vacinou 21,5% da população com uma dose contra a covid-19, mas menos da metade (10,5%) com as duas doses, segundo dados do Ministério da Saúde. O ritmo lento da campanha de imunização, advém da falta de insumos.

O maior problema no atraso da segunda dose diz respeito à Coronavac, devido a uma escassez de doses no país em decorrência da falta do insumo farmacêutico ativo (IFA) enviado pela China ao Butantan. 

Apesar desse ruído a respeito das vacinas, as perspectivas são positivas para a desaceleração da pandemia. Para o mês de junho, o ministério tem a expectativa de entregar aos estados 41,9 milhões de doses, sendo 5 milhões de doses da Coronavac; 20,9 milhões de doses da vacina da AstraZeneca; 12 milhões de doses da vacina da Pfizer; e 4 milhões de vacinas a ser recebidas por meio do programa global Covax. Quando todas essas doses tiverem sido aplicadas, será possível começar a acontecer a chamada imunização de rebanho, dando possibilidade da maior retomada da atividade econômica. 

MP da Eletrobrás

A medida provisória da Eletrobrás (ELET3) foi aprovada no dia 20 de maio na Câmara dos Deputados, essa medida busca a privatização  da companhia em linha com a agenda de privatizações do atual governo. Porém, caso seja aprovada no Senado, ainda não será uma companhia totalmente privada.

Como mencionado anteriormente, caso a MP passe pelo Senado, será necessário fazer uma cisão da empresa para então a venda de controle, semelhante com a BR Distribuidora. Isso advém da companhia possuir ativos que não podem ser privatizados por questões constitucionais, como usinas nucleares e a própria usina de Itaipu, então, seria feito uma cisão da companhia onde nessa NewCo ficariam esses ativos “estratégicos” e na Eletrobrás o restante, podendo assim privatizá-la.

O modelo para privatização será a venda das ações de forma progressiva por parte do governo, o qual deixa de ser automaticamente o principal acionista. Porém, na MP possui um mecanismo de certa forma semelhante ao da privatização da Vale, o qual prevê a criação das chamadas “Golden Shares”, ou seja, o governo irá possuir essas ações e mesmo com a venda da maioria das ações “tradicionais” ele ainda participará de decisões estratégicas da companhia e direito a cadeira no conselho de administração, semelhante a outras companhias privatizadas como Embraer.

 PIB e situação fiscal

Na última Carta de Conjuntura, citamos que a projeção do PIB brasileiro para o final de 2021 era de 3,09%, porém no mês de maio já foi divulgada uma nova projeção de crescimento. No Boletim Macrofiscal, publicado no dia 18, o Ministério da Economia divulgou que esperava uma projeção de crescimento do PIB em 2021 de 3,5%. No dia 31, a previsão ainda aumentou para 3,7%. Isso se deve a uma melhora do resultado econômico do primeiro trimestre de 2021, além de ser esperada uma aceleração no setor de serviços, com a contínua vacinação no país.

Observando a situação fiscal do país, é possível perceber que houve melhoria no resultado primário do país entre as previsões de maio e abril. O relatório extemporâneo citado na última Carta de Conjuntura  indicava que o déficit do governo neste ano passaria de R$ 286 bilhões (3,5% do PIB), e o novo relatório prevê déficit de R$ 187,7 bilhões (2,2% do PIB). Essa melhoria se deve à melhoria na receita, impulsionada pela retomada do crescimento, já que houve um acréscimo de R$ 11,7 bilhões entre os dois relatórios. Porém, a maior parte desse valor, cerca de R$ 10 bilhões, servirá para pagar o programa de manutenção do emprego, o BEm. A previsão total de despesas primárias praticamente não se alterou, ficando em R$ 1,621 trilhão, ante R$ 1,631 bilhão da publicação anterior. Por fim, o teto de gasto para este ano é de R$ 1,485 trilhão e as despesas sujeitas ao teto projetadas estão em R$ 1,490 trilhão.

Desemprego, Copom e inflação

Foi aprovado no dia 26 a MP nº 1021, que reajustou o valor do salário mínimo de 2021 de R$ 1.045 para R$ 1.100. O valor não repõe a inflação, já que o salário deveria ser reajustado para no mínimo R$ 1.102,00 para que isso ocorresse, porém, o aumento torna-se preocupante devido ao cenário de crise no país: com salários mínimos maiores, as empresas estarão mais propensas a demitir seus funcionários. A taxa de desemprego no Brasil atingiu 14,7% no primeiro trimestre deste ano, um novo recorde histórico, sendo o maior nível dos últimos dez anos. O número implica um crescimento de 2,5 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado e supera o recorde anterior de 14,6%, registado no período entre julho e setembro de 2020.

Na última Ata do Copom, publicada no dia 11, foi relatada a evolução positiva da atividade econômica brasileira, apesar da incerteza acerca do crescimento da economia ainda permanecer acima do usual. Além disso, foi indicado que a expectativa de inflação para 2021, 2022 e 2023 apuradas pela pesquisa Focus encontra-se em torno de 5,0%, 3,6% e 3,25%, respectivamente, sendo que para este ano encontra-se no topo do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação. Assim, definiu-se nessa reunião pela elevação de 0,75% na taxa de juros, elevando a taxa Selic de 2,75% para 3,5%. Dependendo da evolução da atividade econômica, o balanço de riscos, e as projeções e expectativas de inflação, é considerado pelo Copom um ajuste na taxa de juros da mesma magnitude na próxima reunião.

De acordo com o IBGE, a prévia da inflação de maio ficou em 0,44%. O índice ficou abaixo da taxa de abril (0,60%) e acumula alta de 3,27% no ano. Nos últimos 12 meses, a variação está em 7,27%, acima dos 6,17% registrados nos 12 meses anteriores. O maior impacto na prévia da inflação foi o grupo saúde e cuidados pessoais, que subiu 1,23%, influenciado pelo reajuste de 10,08% nos medicamentos. Porém, individualmente, o maior impacto veio da alta na energia elétrica, que subiu 2,31%, dentro do grupo habitação, que teve aumento de 0,79%. O único grupo que teve deflação em maio foi o de transportes (-0,23%), influenciado pela queda de 28,85% nas passagens aéreas. 

Relacionado com o aumento do custo da energia elétrica, está a atual crise hídrica no Brasil: foram registrados no período entre setembro e maio de 2021 os piores níveis de chuvas em 91 anos de histórico no reservatório das hidrelétricas, principal fonte de geração de energia do país. Com a escassez de chuvas, está sendo considerado pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), liderado pelo Ministério de Minas e Energia, a flexibilização de restrições à operação de algumas hidrelétricas, com o objetivo de permitir maior geração de energia ou mais armazenamento em determinadas regiões. As flexibilizações, no entanto, devem enfrentar resistência tanto da Agência Nacional de Águas (ANA) como do Ibama (e outras organizações) por preocupações ambientais e políticas. No dia 28, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a mudança da bandeira amarela para a vermelha, fazendo com que o aumento do custo da produção seja redirecionado às famílias brasileiras, possivelmente agravando a atual crise, aumentando a inflação do grupo para o próximo mês e diminuindo a expectativa de crescimento do PIB.

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Autores: Artur Roman, Carolina Melo, Ricardo Pering, Vinícius Cadorin

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A relação entre inflação, juros e câmbio.

A relação entre inflação, juros e câmbio.

Introdução

As transações entre países estão cada vez mais rápidas e tenderão a evoluir conforme a globalização e a expansão da tecnologia. A necessidade de importar bens de outros países, realizar viagens internacionais ou até mesmo investir no exterior está presente na rotina de várias pessoas, junto com a dúvida de qual é o valor da sua moeda em relação ao do outro país. Com intuito de prover os primeiros passos para aqueles que desejam conhecer os fundamentos do mercado cambial, este artigo abordará como o preço dos bens e do dinheiro afetam a taxa de câmbio. Vale lembrar que existem diversas óticas para observar o mercado de câmbio a longo prazo, como a análise das transações internacionais através do balanço de pagamentos, dos efeitos da política fiscal e monetária no modelo de Mundell-Fleming conforme o regime cambial e também através da construção de portfólios, mas compreender a paridade do poder de compra e a paridade de juros é um bom começo.

A taxa de câmbio é um indicador macroeconômico que evidencia o elo econômico entre os países e representa um dos mercados mais voláteis do mundo, com baixos custos de transação, alta liquidez e velocidade de negociação. A pesquisa feita pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) em 2016 aponta que a captação média diária no mercado cambial foi de US$ 5,1 trilhões, sendo que os pares negociados euro-dólar e dólar-yene corresponderam a 41% de todo o mercado cambial negociado nesse ano. Por ser um ativo extremamente volátil, o dólar é considerado um instrumento de hedge pelos investidores brasileiros principalmente por ter, na maioria das vezes, correlação negativa com a bolsa brasileira. Ao atuar no mercado cambial com intuito de especular moedas e gerar lucros, é importante saber que a moeda adquirida não se multiplica pela mesma unidade monetária aplicada na transação, o investimento não gerará fluxos provenientes da aplicação. É possível lucrar através das oscilações, mas diferentemente das ações, que geram valor à uma empresa, ou uma debênture cujo investimento agregará em capital, ao comprar esse ativo de hedge o retorno estará sujeito apenas à paridade de valor com a moeda negociada bilateralmente.

Define-se taxa de câmbio como o preço de uma moeda em relação a outra. Quando se diz que o câmbio dólar real é de US$/R$ 5,00, isso significa que é necessário R$ 5,00 para comprar US$1,00 e alcunha-se a cotação em termo direto, isto é, quando a unidade monetária estrangeira é expressa em relação à unidade monetária nacional. Como a taxa de câmbio é a relação de troca entre duas moedas diferentes, ela é definida a partir da oferta de divisas -provenientes dos exportadores, entrada de turistas e capital externo e dos demais agentes que trocam dólares por reais – em comparação com a demanda por divisas entregue pelos importadores, pela saída de turistas e capitais externos e de outros agentes que trocam reais por dólares. A oscilação da cotação do câmbio pode ocorrer de duas formas: Quando há uma maior oferta de divisas, significa que tem mais moeda internacional em circulação do que moeda nacional e a taxa de câmbio é reduzida, esse fenômeno é chamado de valorização cambial. Caso aumente a demanda por divisas, a cotação do câmbio aumenta e ocorre a desvalorização na taxa de câmbio.

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Paridade de poder de Compra

A paridade de poder de compra (PPC), ou lei do preço único, tem o conceito de que em um mundo ausente de barreiras ao livre comércio entre países o preço de um mesmo bem deverá ser o mesmo em qualquer lugar ao mesmo tempo. Proveniente disso, a taxa de câmbio oscilará em torno de um valor de equilíbrio a longo prazo para garantir a igualdade dos preços dos bens em diferentes moedas. As principais hipóteses para PPC ser válida são:

  1. Não há barreiras comerciais ou arbitragem entre os bens
  2. Não há custo de transações entre os países
  3. Os bens negociados entre os países são perfeitamente homogêneos

Ou seja, como a taxa de câmbio é o preço que equilibra as ofertas e demandas por moeda estrangeira no mercado de câmbio, a paridade de poder de compra é uma forma de garantir que os negociantes não pratiquem arbitragem de moedas entre os países. Define-se arbitragem o processo de comprar um ativo por um preço mais barato e vendê-lo mais caro em outro mercado, o mecanismo funciona da seguinte forma: Considere que a taxa de câmbio entre dólar e euro seja de US$/€ 1,10 em Nova York e em Londres a taxa de câmbio seja US$/€ 1,20. O investidor poderá converter US$ 1,1 milhão para euros em Nova York e receberá € 1 milhão conforme a taxa de câmbio local, em seguida ele converterá todo o euro recebido para dólar vendendo-o no mercado de câmbio em Londres, recebendo US$ 1,2 milhão graças à taxa de câmbio local e auferirá um lucro de US$ 100 mil apenas arbitrando entre duas moedas. Essa é uma estratégia que investidores exploram sempre que possível pelo simples fato de que pessoas preferem mais dinheiro ao invés de menos e, apesar do exemplo considerar o mercado de moedas, a arbitragem poderá ser explorada para qualquer ativo quando a hipótese do preço único de que dois fluxos de caixa idênticos devem ter o mesmo preço for quebrada. Ao abrir essa janela de oportunidade, o investidor fará um short selling e auferirá lucro positivo com risco zero.

Ao lidar com o mercado cambial de dois países nem sempre será possível arbitrar, o mais provável será explorar a desvalorização relativa condicionada quando a taxa de câmbio não estiver em seu equilíbrio de longo prazo conforme a PPC. Aqui vale o exemplo de um comprador que deseja adquirir uma moto negociada tanto na Alemanha quanto na República Tchéquia, dado a hipótese de que a moto é um produto homogêneo entre os países e equivale a cesta de bens definitiva para PPC ser válida. O consumidor observa que a taxa de câmbio entre os países está em Kč/€ 20, verifica os preços e percebe que a moto vale € 10.000 na Alemanha e Kč 100.000 na República Tchéquia, então a taxa de câmbio de equilíbrio entre o euro e a coroa tchéquia será de €/Kč 10. As hipóteses implicam que a coroa tchéquia está significativamente desvalorizada em relação à PPC e deve-se apreciar ao passar do tempo, permitindo ao comprador em euro adquirir o produto na República Tcheca por um preço menor. Essa vantagem comercial será inibida quando todos os consumidores perceberem que a moeda tchéquia está mais barata que o euro, aumentando a demanda por bens desse país através de uma maior oferta de euro, levando a apreciação da moeda local até o nível de equilíbrio de longo prazo. Ao abstrair esse exemplo numa situação onde o preço dos bens oscila dentro do próprio país, o consumidor considerará a taxa de câmbio real para tomar decisão por desejar descontar os efeitos inflacionários, esse comportamento trará uma relação intrínseca entre paridade de poder de compra e taxa de câmbio real. Se a PPC é válida no longo prazo, então a taxa de câmbio real será constante pelo fato da PPC garantir o diferencial de preços entre os países com os ajustes devidos da taxa de câmbio nominal e, salvo os impactos econômicos proveniente desses ajustes no curto prazo, a taxa de câmbio real sempre tenderá a sua média histórica enquanto a PPC for válida. Quando a taxa de câmbio real é constante, a competitividade dos preços dos bens transacionados entre os países é mantida pelo seguinte mecanismo: Quando um país sofre um aumento inflacionário, os bens negociáveis tornam-se menos competitivos por apresentarem preços maiores e, ao invés de tomar a depreciação da taxa de câmbio nominal para “contrabalancear” o efeito, a taxa de câmbio real deixa de apreciar (através do aumento inflacionário) por manter-se constante ao longo do tempo. Vale esclarecer o argumento pelo fato de que se ganha competitividade não através de uma desvalorização nominal do câmbio, mas através da desvalorização real da taxa de câmbio.

Nas condições práticas, o investidor deve reconhecer que outros fatores influenciam na taxa de câmbio e que as premissas da PPC são frágeis. É de amplo conhecimento que não existe livre negociação entre os países, a exemplo da guerra comercial entre Estados Unidos e China, assim como os mecanismos de ajustamento da taxa de câmbio não são necessariamente imediatos por conta de que não apenas os bens – cujos preços não são necessariamente flexíveis – afetam na oferta e demanda por câmbio, mas também os ativos financeiros transacionados entre os países, sem contar que a heterogeneidade dos bens fará com que a cesta de bens analisada entre os dois países seja inconsistente para determinar a verdadeira PPC. Essas condicionantes devem ser consideradas no curto prazo, mas a longo prazo a PPC é uma boa ferramenta para determinar a taxa de câmbio de equilíbrio. O método de PPC mais conhecido entre os analistas é o Big Mac Index desenvolvido pela revista The Economist, .

Mecanismo de transmissão e a Paridade de Juros.

A Teoria Quantitativa da Moeda afirma que os preços de uma determinada economia estarão relacionados com a quantidade de moedas em circulação. Através desse pilar da teoria clássica pode-se assumir que a política monetária – determinada pelo Banco Central – translada efeitos entre oferta monetária e preços e, conforme observado anteriormente, os preços dos bens em um país influenciarão na PPC e em sua respectiva taxa de câmbio de longo prazo, ou seja, a política monetária fornece um mecanismo de transmissão que impacta taxa de câmbio através dos preços. Ao determinar o quanto de moeda deseja distribuir na economia, a autoridade monetária irá precificá-la ao equilibrar a oferta à demanda exigida. Ao depararem-se com a taxa de juros definida do seu país em relação ao mundo num cenário de livre mobilidade de capitais, as pessoas escolhem entre manter parte do dinheiro em mãos ou aplicá-los em títulos de investimento proporcionais às taxas de juros. Isto é, as pessoas sempre comparam quais as taxas de juros mais atrativas para elas e aplicam seu dinheiro onde for mais rentável, dado o quanto ela é propensa ao risco, e optam por manterem em mãos parte do dinheiro que pretendem usufruir para consumirem bens e serviços. Caso o investidor enxergue uma taxa de juros mais atrativa no exterior, ele oferecerá sua moeda em troca da estrangeira e irá adquirir o título de investimento estrangeiro que lhe for conveniente, desvalorizando a moeda onde reside. Por esses fatores, a política monetária também é um mecanismo de transmissão que impacta taxa de câmbio através da taxa de juros. Na prática, esse mecanismo de transmissão não é instantâneo e esse atraso afetará na tomada de decisão de um investidor.

Resumindo, o preço dos bens define a taxa de câmbio e parte da condição de equilíbrio é dada pela paridade de poder de compra, assim como a taxa de juros também afeta taxa de câmbio. Antes de descrever qual a condição de equilíbrio da taxa de câmbio pela ótica monetária, entenda o raciocínio dos investidores: Se o investimento no exterior depende da taxa de câmbio e da taxa de juros externa e o investimento interno apenas da taxa de juros interna, como definir qual terá o maior retorno? Simplificando a questão, considere um investidor nos Estados Unidos que compara entre investir no seu país ou investir na Europa, se ele usar dólares para comprar um depósito em euro, quantos dólares receberá após um ano? Ele observa as seguintes condições de mercado:

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Considerando que a expectativa da taxa de câmbio esteja correta, o investidor seguirá os seguintes passos: Primeiro, ele converterá US$ 1,10 em euro e terá € 1,00. Sabendo que o título europeu renderá 5% ao ano, então no final do período obterá € 1,05. Como o investidor aguarda uma desvalorização, então ele converterá esse euro em dólar cujo resultado será a multiplicação da expectativa do câmbio com a rentabilidade obtida (€ 1,05 vezes US$/€ 1,20 = US$ 1,26). Ao final dessa operação, o retorno do investimento foi de 14,54% ao ano e será mais vantajoso investir na Europa do que nos Estados Unidos, pois mesmo a taxa de juros exterior sendo menor ela é compensada por uma desvalorização significativa da taxa de câmbio.

Os incentivos para se investir no exterior é que os depósitos externos tenham retornos esperados maiores com base nas expectativas de desvalorização cambial e taxa de juros, mas existe uma condição que acalma os ânimos dos mercados e impõe indiferença entre os investimentos dos países e iguala. Essa neutralização ocorre quando o mercado de câmbio está em equilíbrio, isto é, os depósitos em todas as moedas oferecem a mesma taxa de retorno esperada. A condição de paridade de juros implica que os detentores potenciais de depósitos em moeda estrangeira consideram esses depósitos como ativos igualmente atraentes e, nesse ponto, não há excessos de oferta e de demanda, os depósitos ficam equilibrados e todas as taxas de retorno esperada são iguais. Em termos gerais, a paridade de juros – Interest Rate Parity – assume que a variação da taxa de juros é igual à taxa de câmbio futura em função do prêmio ou desconto ao investir no estrangeiro, implicando que o câmbio futuro – termo referente quando a liquidação do contrato se dá em dois dias ou mais – entre duas moedas deve se igualar ao diferencial de juros conforme o prêmio ou desconto do país. Como os contratos futuros são instrumentos sujeitos às condições de oferta e demanda do mercado, o prêmio ou desconto podem oscilar da sua condição de equilíbrio e oferecem uma janela de arbitragem nessa ocasião.

No cenário de ruptura da paridade de juros, pode-se aplicar a estratégia de carry trade ilustrada no seguinte exemplo: Suponha que títulos brasileiros tenham maiores rendimentos que os títulos chilenos por conta do desequilíbrio entre o diferencial de juros e taxa de câmbio, isso implica que os chilenos irão se endividar em moeda local (pois eles apresentam taxas de juros menores) e demandarão títulos brasileiros, nessa operação a rentabilidade deles oferecerá margem suficiente para pagar os empréstimos tomados e e ainda obter lucros positivos. Enquanto essa janela estiver aberta, os chilenos continuarão a realizar essa operação e os preços dos títulos brasileiros se elevará ao ponto de reduzir o diferencial de juros ao nível de equilíbrio, exaurindo a oportunidade ao voltar à paridade de juros. Na realidade, essa estratégia é complexa de ser aplicada e requer uma compreensão minuciosa de como calcular o prêmio de risco na curva de juros. Através desses insights, podemos entender como a paridade de juros e a paridade de poder de compra se relacionam.

Considerações sobre a Paridade de Juros e Paridade de Poder de Compra

Descrevemos que a paridade de juros relaciona o preço da moeda com a taxa de câmbio e que a paridade de poder de compra estabelece a relação entre o preço dos bens com a taxa de câmbio, essas condições clássicas de paridade permitem a expansão de teorias entorno dos mercados de bens, monetário e cambial. Uma dessas combinações é a famosa extensão do efeito Fisher: a variação entre taxas de juros no modelo nacional é igual à variação da inflação e, no modelo internacional, a variação entre taxa de juros é igual a variação da expectativa da taxa de câmbio. As relações impostas pelo efeito Fisher permitem as projeções da taxa de câmbio e inflação dada a taxa de juros caso as paridades clássicas sejam válidas.

Cumby e Obstefeld (1982) afirmam que o mercado de bens e de ativos são cruciais para a determinação da taxa de câmbio, sendo necessário um estado de equilíbrio entre os dois mercados para que haja a determinação do terceiro, dado que a paridade do poder de compra determina a relação entre nível de preços e taxa de câmbio e a paridade de juros mantém a taxa de câmbio futura conexa à taxa nominal de juros. O pressuposto da pesquisa assume que se ambas as condições clássicas de paridade são verdadeiras no curto prazo, a política monetária não poderá influenciar a taxa de juros real ex ante, isto é, o rendimento real dos ativos não será abalada por qualquer decisão da autoridade monetária. Entretanto, caso uma das relações de paridade venham a falhar por conta de incertezas ou aversão a riscos, a política monetária terá efeitos sobre a taxa de juros real ex ante e poderá haver um desequilíbrio entre a taxa de juros internacional e a do seu próprio país. A pesquisa traz consigo aplicações reais das teorias de paridade e conclui a necessidade de outros métodos para a formulação de uma taxa de câmbio de equilíbrio que correspondam a macroeconomia atual, mas mantém a validade delas em economias pequenas e abertas. Por mais que as paridades clássicas não se adequem de forma perfeita à realidade e necessitem de outras métricas para estimarem a taxa de câmbio, elas são os pilares para a compreensão do mecanismo básico que rege as leis da oferta e demanda no mercado monetário de qualquer país. Essas teorias são utilizadas principalmente para desvendar os rumos da taxa de câmbio a longo prazo, onde os efeitos de seus mecanismos de transmissão são observáveis, e devem ser complementadas conforme o horizonte temporal de quem deseja estimar o preço relativo das moedas.

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Referências:

Rudiger Dornbusch, 1980. “Exchange Rate Risk and the Macroeconomics of Exchange Rate Determination,” NBER Working Papers 0493, National Bureau of Economic Research, Inc.

Rudiger Dornbusch, 1976. “Expectations and Exchange Rate Dynamics,” The Journal of Political Economy, Volume 84, issue 6(Dec.,1976), 1161-1176.

Callum Henderson, 2012. Currency Strategy: The Practitioner’s Guide to Currency Investing, Hedging and Forecasting, 2º edição. John Wiley & Sons Ltd, The Atrium, Southern Gate, Chichester, West Sussex PO19 8SQ, England.

CUMBY, R. E. OBSTFELD, M. (1982). International Interest-Rate and Price-Level Linkages Under Flexible Exchange Rates: A Review of Recent Evidence, NBER Working Papers, n. 0921, National Bureau of Economic Research.

Cristina Terra, 2014. Finanças Internacionais: Macroeconomia Aberta, 1º edição. Elsevier Editora LTDA.

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